O Poder Latente da Alma de Watchman Nee

O Poder Latente da Alma de Watchman Nee

1 de dezembro de 2007 38 Por Pr. João de Souza

Sinopse:

Nesta obra o autor chama a atenção para uma pequena frase que se encontra no Livro de Apocalipse 18,:1-13 onde se diz que a Babilônia comercializa com escravos e até almas de homens.

Após  ser  criado  por  Deus,  Adão  foi  dotado  com  grandes  poderes  em  sua  alma, porem  ao  cair  em  desobediência,  seus  poderes  não  foram  perdidos;  eles  apenas passaram  a  um  estado  de  “sono”  ou  “latente”  dentro  do  homem.  Desde  então, Deus tem rejeitado usar tais habilidades da alma em sua obra. Satanás ao contrario tem  procurado  despertar  estes  poderes  adormecidos  no  homem.  Seu  alvo  é falsificar as operações do Espírito Santo, levando o homem a crer que tudo provém da  alma  humana.  Nisso  temos  também  a  explicação  para  os  fenômenos  da parapsicologia.  O  autor  adverte  seriamente  os  filhos  de  Deus  com  respeito  ao perigo do uso dos poderes da alma na obra de Deus. O contato com o inimigo, será inevitável. Exemplos são dados com vistas à identificação das obras que procedem do poder latente da alma e das que são realizadas pelo poder do Espiríto Santo:

Sem duvida, esta é uma mensagem atual para a igreja de Jesus Cristo.

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Opinião do Pastor João de Souza

Em 1973 deparei-me com os primeiros livros de Watchman Nee, o obreiro chinês que ficou preso por mais de vinte anos pelos comunistas, enquanto seus colegas pastores fugiam para o Ocidente. A princípio lia-os todos em edições publicadas em inglês. Fui um estudioso leitor e entusiasta de seus livros, especialmente, O Homem Espiritual e Autoridade Espiritual. Foi por essa época mais ou menos que li O Poder Latente da Alma, um livro que me deixou seriamente preocupado com tudo o que o autor apresenta no texto.

Tornei-me um maníaco por tudo que era publicado de Watchman Nee, e em minhas viagens buscava encontrar seus livros em espanhol ou em inglês. No decorrer dos anos a fase watchmaníaca passou, e comecei a questionar, anos depois, alguns de seus livros que levam seu nome, já que ele afirma que as únicas obras que escreveu foram O Homem Espiritual e o Poder Latente da Alma; as demais obras são compilações de seus ensinamentos feitas a partir de anotações por pessoas que eram seus discípulos ou que ouviram suas mensagens. E fico imaginando alguém editando um livro em que apareço como autor a partir de anotações feitas dos sermões que prego, sem nunca passar pelo crivo do escritor.

As inquietações começaram quando percebi que Nee enfaticamente questiona o trabalho das mulheres na igreja, um paradoxo do autor, pois ele mesmo afirma haver sido influenciado pela vida de algumas mulheres, como Jessé Penn Lewis cujos livros ele cita freqüentemente, uma tal de Miss Barber que o ajudou muitíssimo na vida cristã e Madame Guyon a mística católica francesa. Este paradoxo é a primeira grande e contundente prova de que muito do que se publica como sendo de sua autoria deve ser questionado.

Trinta e três anos depois voltei a ler, O Poder Latente da Alma edição com um português sofrível editado em 1988 em Belo Horizonte. O livro estava ali havia anos na prateleira da estante, e nesta última leitura comecei a fazer para mim mesmo algumas perguntas a respeito do que ele escreve. Antes, porém, deixa-me resumir o conteúdo do livro àqueles que nunca o leram. O autor argumenta com muita propriedade que na Criação o homem foi dotado de muito conhecimento e força física, pois podia lavrar a terra sem esforço e conseguia dar nome a todos os animais e plantas, além de possuir a capacidade de chamá-los, pelo poder da mente, de onde quer que estivessem. “Todos os seus poderes estavam inerentes em sua alma vivente” (aqui um dos erros, pois inerente já significa “estar”). “… concluímos que antes da queda Adão tinha nele o poder de tornar-se como Deus” (pp 10-12).

A tese básica do autor é de que o pecado “trancou” este poder divino na alma humana, isto é, deixou este poder latente na alma, e que o homem consegue liberá-lo realizando milagres, lendo pensamentos e conhecendo o futuro. Afirma o autor que muitas orações respondidas, não são respostas de Deus, mas “forças” mentais enviadas a um amigo ou pessoa que traz cura ou libertação por quem se orava. “É simplesmente uma resposta a uma oração que você dirigiu a seu amigo”, pois “seu desejo os envia a seu amigo como uma força… Na aparência você está orando, mas na realidade você está oprimindo a pessoa com seu poder psíquico” (pp 28-29). Confessa que muitas vezes conseguia “ler” o que as pessoas pensavam, mas não atribuía tal fato a uma ação divina, mas ao poder de sua alma.

O autor argumenta que o serviço, a paz e a alegria, o batismo no Espírito, os cânticos que muitas vezes sentimos num culto da igreja são, na realidade, a manifestação das “forças psíquicas”, ou a liberação do “poder da alma” e não devem ser confundidas como manifestações do Espírito Santo. Para ele, as reuniões de avivamento, os cânticos, a exposição bíblica, a alegria, visões e sonhos são, na maioria das vezes, manifestações da alma.

Em parte, concordamos com o autor, pois a alma tem o poder de copiar e imitar as manifestações do Espírito, mas ensinar que quando oramos, cantamos ou temos uma palavra de conhecimento podem ser coisas da alma é atribuir à mente o que pode ser atividade legal do Espírito Santo.

Existem algumas questões que precisam ser respondidas e que o autor deixou obscuras em seu livro:

1. Se o poder da alma ficou trancado ou é uma força latente no ser humano devido ao pecado, por que na salvação esse poder não é liberado já que a salvação implica em perdão do pecado? Quando o pecado que trancafiava o poder da alma é perdoado, deveria “liberar” este poder. Também, se existe um poder latente na alma aprisionado pelo pecado, liberar esse poder é vencer o pecado. Por que então é “pecado” liberar o poder latente da alma se é o “pecado” que o trancou? Agora, livre do pecado, essas manifestações deveriam ser “normais”.

2. Se o homem no Éden era a semelhança de Deus e tinha tanto poder, e este, devido ao pecado ficou “latente” ou “trancado”, então, hoje, ao liberar este poder pela mente, o autor pressupõe que o poder da mente tem a capacidade de eliminar o pecado, já que rompe com a barreira e se manifesta livremente.

3. Se temos em nós o poder latente de ler pensamentos e de realizar milagres, que as pessoas liberam por meio do controle do corpo e da mente, por que Jesus nos daria poder de realizar essas coisas em seu Nome? Não poderia Jesus ensinar que, tendo os pecados perdoados, estas qualidades se manifestariam em nós? Isto partindo da tese de Nee de que o poder continua latente no homem. Veja bem, não discordamos desta linha mestra, mas do fato do autor analisar a vida cristã como obedecendo a uma “liberação” da alma. No entanto, as manifestações espirituais são dadas pelo Espírito Santo.

4. Por que no ensinamento do Novo Testamento os apóstolos nunca abordaram estas questões, já que viviam num contexto social e espiritual em que havia milagres e curas pelos místicos da época? No tempo dos apóstolos eram conhecidos os poderes dos oráculos de Sibila, em Roma e os de Delfos no templo de Apolo, lugares para onde afluíam reis e imperadores à busca de conhecimento. Esses dois oráculos eram famosos naquele tempo.

5. Nee ensina que a maioria das manifestações espirituais na vida do crente pode ser da alma, mas não ensina como podemos identificar as que são do Espírito. Isto porque sua única fonte bibliográfica era uma obra de Jessie Peen Lewis, A Alma e o Espírito, e nunca teve acesso a obras como La Evolución Mística do padre Arintero, um tratado da mística através da história e da atuação do Espírito Santo na vida de alguns de seus santos. É neste livro que os místicos nos ensinam a descobrir e identificar quando uma obra, visão ou sonho é de Deus ou de Satanás. Em O Poder Latente da Alma Watchman Nee apresenta o problema, mas não fornece a base bíblica, histórica ou experimental que nos ensine como evitar o falso do verdadeiro. Nee, ao que parece, se deixou influenciar fortemente por Jessie Penn Lewis a escritora que, em certo sentido, ajudou a abafar o avivamento do país de Gales. Ele a cita com freqüência em seu livro.

6. Nee coloca que muitas vezes quando oramos por uma pessoa, na realidade ela é curada porque enviamos, pela oração, emanações da alma. – Sendo assim, quanta gente poderia ser curada hoje sem a necessidade de jejuns e de busca de poder de Deus? Mas não explica como isso ocorre pela oração eficaz. Nee não estaria confundido os poderes psíquicos das religiões orientais e sua manifestação através de espíritos demoníacos com o poder “latente” da alma? Que existe uma interação entre espíritos malignos e liberação de energia mental, todos sabemos. Aliás, é comum notarmos este tipo de falta de entendimento em alguns irmãos orientais, como em David Cho na Quarta Dimensão, este sim, misturando coisas da alma e da psique com o que é de Deus.

7. Nee não entendeu que as manifestações no campo espiritual são semelhantes e que precisamos ter parâmetros para entender se são ou não da alma e de Deus? Mas onde estão estes parâmetros de identificação? Por que ele não nos fornece em seu livro? Seria porque estava exposto à influência oriental com seu shamantismo, budismo e confucionismo? E não sabia separá-los do poder manifesto de Deus?

Pelo menos o Padre Juan G. Arintero, em seu livro La Evolución Mística – em el desenvolvimento y vitalidad de la iglesia 1- não dogmatiza o tema, e sim apresenta algumas descobertas dos místicos quanto ao mundo espiritual. Por exemplo. Os místicos da igreja descobriram que todas as manifestações espirituais quer divinas ou satânicas são semelhantes em sua visualização ou aparência. Assim, Deus se manifesta em meio a trevas, Satanás também. Deus se apresenta no meio de radiante luz, Satanás idem. Deus se apresenta como luz, Satanás também. Então, como saber que uma experiência é divina, isto é, que procede de Deus?

Esses homens e mulheres que gastavam dias e anos em oração, meditação e leitura em monastérios descobriram que uma experiência espiritual só pode ser avaliada pelos resultados que deixa na pessoa. Toda experiência espiritual, a princípio, se reveste de tremor e temor; de medo e apreensão. Mas ela é divina quando nos deixa calados, isto é, quando hesitamos em compartilhá-la com outros, quando nos deixa mais humildes, serviçais e obedientes. Ela não é de Deus quando nos deixa espiritualmente soberbos, isto é, com a sensação de que somos mais espirituais que os demais, nervosos, irritados e rebeldes. Daí a conclusão de que, geralmente, os mais espirituais são sempre os mais rebeldes.

O livro O Poder Latente da Alma em vez de ser um subsídio importante para o conhecimento espiritual e a prática dos dons é um muro que impede os que querem mais de Deus de prosseguir avante em sua busca de maior espiritualidade, pois, como saber se não estou ingressando apenas no campo da mente nas experiências com o Senhor? Serve de bloqueio aos que, com sinceridade e dedicação oram e jejuam buscando receber o poder de Deus, pois, como saberão se, nesta busca, não estão liberando o poder latente da alma em vez do poder de Deus?

O livro é incompleto, porque não apresenta uma conclusão lógica, e teologicamente fraco.