Cultivando a vida interior

6 de dezembro de 2009 0 Por Pr. João de Souza

Como é difícil cultivar a vida interior, tendo que vencer os desejos de nosso eu e submetê-los aos desejos de Deus. Sentir, como Paulo o “Cristo em nós” e ao mesmo tempo o latejar da carne e do pecado é constante desafio a todos os que querem sinceramente servir a Deus.

Gosto muito de ler sobre a vida interior que monges, pastores e servos de Deus aprenderam a desenvolver ao longo de suas vidas. Sim, porque a vida interior brota da morte do eu, da morte dos desejos pessoais, da morte aos anelos e amor pelas coisas da vida terreal. Enquanto anelamos sucesso, fama e desfrutamos dos bens da terra, não conseguiremos desfrutar da verdadeira vida interior que Deus tem para nós.

É a velha luta entre o ser e o fazer; entre nossos anelos e os de Deus. É a luta entre a carne e o Espírito. Deparamo-nos todos os dias com mensagens de triunfalismo e de prosperidade e pouco ou nada ouvimos sobre a necessidade de se desenvolver uma vida interior com Deus.

Os líderes em evidência estão sempre nos oferecendo passos de sucesso, passos de liderança eficaz, passos para a prosperidade, passos para tudo, e nenhum dos líderes em evidência hoje no Brasil fala de recolhimento, de afastamento das coisas do mundo, porque eles próprios teriam que abrir mão de tantas coisas que fazem e com as quais se envolvem diariamente que os afastam de Deus.

Como pregador do evangelho vejo esta luta constantemente em meu ser interior. O desejo de me recolher a uma vida íntima com Deus e ao mesmo tempo o anelo em obedecer as demandas de Cristo que é o mandamento de ir e de fazer; de evangelizar e fazer discípulos, que sempre conflita com a necessidade de se viver intimamente com Deus. Além da inseparável Bíblia, os livros que mantenho em minha biblioteca com as experiências dos místicos do passado, tanto católicos quanto protestantes e evangélicos estão sempre me olhando do alto das prateleiras testando ou me desafiando à vida de santidade interior. De São João da Cruz a Santa Catarina de Siena; de Evelyn Underhill (protestante) a Tozer (evangélico); de Santa Tereza a São Basílio e tantos outros.

O livro mais completo sobre mística da igreja é La Evolución Mística publicação da Biblioteca de Autores Cristãos (BAC) edição em espanhol que herdei de Márcio Valadão – o Márcio da Igreja da Lagoinha. Nele, Arintero compilou a essência da mística da vida cristã e ao me deparar com o que devo fazer sinto-me desafiado pela busca de santidade. Sempre me vejo pesquisando e relendo o que os santos do passado fizeram para viverem intimamente com o Pai. O Espírito Santo era tão íntimo daqueles santos do passado, que viviam apenas para Deus e a leitura sempre me deixa em conflito comigo mesmo. Descubro, no entanto, que muitos dos homens e mulheres viveram o mesmo conflito que temos em nossos dias: Uma vida de comunhão com o Pai, de morte do eu, de quebrantamento que sempre conflita com a missão que temos de cumprir no mundo exterior: Cumprir a missão de Jesus de fazer discípulos sem abandonar a prática das boas obras.

Às vezes parece que vivo continuamente na noite escura da alma tão bem descrita por João da Cruz, sem ouvir sequer um sussurro de Deus, e outras vezes experimento a alegria e o gozo da Presença de Cristo, da qual Teresa de Jesus falava, quando a Presença de Cristo inunda o meu homem interior. E não entendo como Paulo, preso sob grilhões de ferro escrevia aos irmãos: Alegrem-se sempre no Senhor! Outra vez lhes digo: Alegrem-se!

É um conflito interior do qual não conseguimos nos desvencilhar, mas, sei que, se perseverarmos na busca da intimidade com Cristo sempre seremos por ele contemplados!

São João da Cruz, o místico português disse: “Os que querem ser santos em apenas um dia, prometem muito, mas como lhes falta humildade e continuam a confiar em si mesmos, quanto mais propósitos fazem, mais caem, e quanto mais se entristecem, por serem pacientes não conseguem receber o que Deus reservou para eles… (Em a noite escura da alma 1.5).

Um outro místico declarou: “Os mais santos não são os que cometem menos faltas, mas os que costumam violentar a si mesmos buscando ser amorosos e generosos. Os mestres espirituais advertem que Deus deixa, às vezes, nos maiores santos certas fraquezas ou defeitos e que, por mais que tentem não conseguem se corrigir, para que sintam na carne suas próprias fraquezas e para que consigam sentir o que seria a vida deles sem a graça… dessa forma não se envaidecem com os que favores recebidos… a criança que cai ao tentar andar sozinha, corre para sua mãe com ternura e aprende a não se separar dela” (La Evolución Mística, Padre Arintero, p 418).

Não devemos nos perturbar, nos inquietar nem nos entristecer em demasia pelas faltas que não podemos evitar – como fazem os orgulhos que se perturbam e desanimam ao verem suas fraquezas. É preciso aprender a tirar das fraquezas, forças, para que não haja recaída nas mesmas faltas.

Exemplo de vida interior sem este conflito entre a ordem de evangelizar e trabalhar para Deus era Paulo que sabia equilibrar recolhimento com ação e obras. “Quando sou fraco, então é que sou forte”. Paulo vivia nas elevadas montanhas repletas da graça de Deus e ao mesmo tempo experimentava a sequidão do deserto.

Experimente mudar de vida. Experimente parar de fazer certas coisas que você faz apenas para agradar aos homens e comece a fazer as coisas que você sabe agradam a Deus. Se sua alma anela aprofundar-se em Deus, siga em frente, porque sua carne não quererá tal desafio, mas seu espírito anela o que é eterno.

Até a próxima!