O Armagedom Entre o Estado e a Igreja

O Armagedom Entre o Estado e a Igreja

16 de outubro de 2020 2 Por Pr. João de Souza

O Armagedom da Bíblia será a guerra das nações contra Israel, dizem os especialistas em escatologia; o Armagedom brasileiro ocorrerá entre o Estado e a Igreja; uma batalha travada em torno de princípios bíblicos inarredáveis.

A guerra entre a Igreja e o Estado se dará no campo social e religioso. O Estado vem tentando estabelecer um novo conceito do que é família – que no conceito bíblico tradicional é composto de homem e mulher – buscando acrescentar novos padrões de família formada por dois homens ou duas mulheres, inclusive dando-lhes direitos de adotar crianças, algo inadmissível na fé cristã. Laico que é o Estado pode criar leis, tantas quantas quiser, mas não pode legislar a favor de minorias obrigando a maioria discordante a mudar seu ponto de vista. Por exemplo, ao interferir na criação e disciplina dos filhos achando que é direito seu educar e orientar os filhos dos casais o Estado interfere num campo que não é seu. E, sabedor que suas leis ferem a Constituição, tenta se isentar da culpa recorrendo ao Supremo Tribunal Federal. No caso do casamento entre pessoas do mesmo sexo o Supremo que o aprovou alegou tratar-se de um vazio constitucional. E o fará brevemente em relação ao aborto.

A batalha se travará no campo jurídico e no terreno espiritual. No campo jurídico a igreja, ao que parece não se deu conta de que as fileiras do exército governamental já estão no campo guerreando; no campo espiritual é uma guerra que envolve compromisso com a Fé – mas, para os novos segmentos do cristianismo o que é mesmo fé senão uma palavra mágica para se adquirir dinheiro e recursos materiais?

Analise comigo. Quando o Estado dita as regras de como educar uma criança e priva dos pais o direito de lhes ensinar em casa – inda que esses pais sejam qualificados com ensino superior – faz uma declaração de guerra contra a família e também contra a igreja. Ora, esquece o Estado que as escolas e a educação de filhos foram iniciativas da igreja que estabeleceu escolas em todos os níveis e usava os princípios cristãos para orientar e ensinar seus pupilos. A escola sempre foi sustentada por famílias cristãs, que ao longo dos anos patrocinaram financeiramente esses estabelecimentos de ensino. Entregar a família aos cuidados do Estado é um risco sério, porque o Estado é um péssimo gestor e péssimo educador. Ensinar os filhos e lhes transmitir conceitos, sejam estes cristãos ou não é dever da família, e, no caso dos cristãos, a interferência do Estado resultará num conflito de princípios entre a fé o secularismo. E neste sentido as escolas com princípios cristãos têm de ser respeitadas, da mesma forma que os cristãos respeitam as escolas secularistas do Estado. Nossos filhos aprendem a teoria da evolução no currículo estatal, mas são ensinados sobre o criacionismo em casa.

Os conceitos de família e de criação de filhos são herança da tradição judaico-cristã. O lar é o centro educacional, o celeiro de ideias, e no Novo Testamento os apóstolos estabeleceram ensinamentos que tratam do relacionamento marido-mulher, criação de filhos, relacionamento entre empregados e patrões e vice-versa, e tudo o que envolve um lar a que chamamos de lar cristão. Numa sociedade em que a mulher não tinha direitos nem era amada, os apóstolos ensinaram que os maridos devem amar suas esposas. Na Roma daqueles dias em que crianças não tinham valia e os pais podiam descartá-las na sarjeta para serem devoradas pelos cães, os apóstolos ensinaram os pais a cuidarem de seus filhos. Este era o quadro social em Roma no primeiro século. A igreja e não o Estado estabeleceu os princípios para a nova sociedade a partir daquela época.

O Armagedom se travará no momento em que os verdadeiros cristãos terão que optar entre obedecer ao Estado ou permanecer fieis ao ensinamento apostólico que estabeleceu regras para o viver cristão.

Não é uma batalha de ideias, mas de princípios. Porque no campo das ideias pode haver consenso entre as pessoas, mas quando se trata de princípios bíblicos a igreja é intransigente, porque tem de optar entre obedecer aos princípios bíblicos e as leis estabelecidas pelo Estado quando estas conflitam com sua fé. Na questão do aborto, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, da educação de filhos e dos fundamentos da família a igreja tem de permanecer fiel aos seus princípios. E aqui entra o Armagedom, porque os verdadeiros cristãos não titubearão a quem obedecer, inda que resulte em severa punição.

Existem casos na Europa em que os pais perderam o direito pátrio por desobedecer o governo na criação de seus filhos; de pastores enfrentarem julgamento e cadeia por se recusarem a casar pessoas do mesmo sexo; de pregadores serem levados às barras da justiça e a prisão por pregarem o Evangelho puro e simples, e assim sucessivamente. Aqui mesmo no Brasil existem cristãos perseguidos e respondendo processos na justiça por defenderem a Fé. Não há dúvidas de que neste Armagedom cairão muitos cristãos abatidos pelas forças das leis governamentais que atentam contra os direitos de seus cidadãos cristãos, porque o Estado laico costuma deixar o laicismo e interferir no campo religioso. O Estado brasileiro não pode esquecer que a nação foi estabelecida sobre princípios cristãos. A cruz e os símbolos cristãos são parte da cultura espiritual do Brasil. Ignorá-los é esquecer sua própria história. Fundamentar a família em outras bases é dizer aos cristãos que estes não fazem mais parte da sociedade civil.

Ainda que o Estado afirme que não se pode usar símbolos cristãos ou não cada juiz, procurador ou governador deveria ter a liberdade de usar em seu gabinete o símbolo que quiser. Privá-los é interferir no direito de cada pessoa optar por sua religião.

Silenciosamente o Estado está dizendo: Que busquem outra pátria para viver, porque nesta, quem dita as leis sem respeitar os direitos das pessoas e especialmente da família cristã é o Estado.

 

Igreja que é igreja

 

Um sistema político pode acabar com as denominações, mas não com a Igreja. Esta é indestrutível. A Igreja atravessou esses dois mil anos de história sob intensa perseguição, às vezes em nível mundial ou perseguição pontual, e todos os que tentaram destruí-la foram esmagados pela Rocha, Cristo. No dizer de Paulo quem tentar destruir o santuário de Deus, a Igreja, Deus o destruirá (1 Co 3.17). Basta ler a história da igreja de Philip Schaff, o livro The Pilgrim Church de E. H. Broadbent, as obras de F. F. Bruce e o Livro dos Mártires de John Foxe para entender como a igreja verdadeiramente apostólica sobreviveu sob a artilharia pesada de governos.

A questão é simples: A fidelidade aos princípios estabelecidos pelos pais apostólicos requer compromisso com Deus e com os irmãos, e a defesa da fé pode resultar em perseguição, prisão e até mesmo o martírio. A história registra como cristãos em todas as épocas tiveram seus bens confiscados, perderam suas terras e saíram errantes pelo mundo. Os pais da igreja e os cristãos enfrentaram seu Armagedom; nossos irmãos da China atualmente enfrentam o seu.

A igreja brasileira caminha, indubitavelmente para o campo de batalha e enfrentará seu Armagedom. E, com a aprovação de leis que ferem os princípios cristãos, por certo os fieis haverão de se posicionar.

Um governo pode criar leis que favoreçam minorias quaisquer, mas não pode incriminar o livre-pensamento e as opiniões diversas. Criar leis para estabelecer um campo de pensamento, isto é, levar as pessoas a pensar de maneira igual e amordaçar as ideias é pavimentar a pista que leva ao campo de batalha.