ATENTOS AOS SINAIS DOS TEMPOS

No final do ano de 1999 a Editora Vida publicou meu livro, Final dos Tempos? Em que o então diretor pastor Eudes Silva me pedia para fazer uma abordagem com o fim de desmistificar a euforia que havia na sociedade de que ao passar para o ano 2000 o mundo ficaria diferente. Pesquisei autores que escreveram sobre o que aconteceu no final dos anos 1000, como Georges Duby, vasculhei a Enciclopédia Britânica, porque o Google como fonte de pesquisa ainda não existia e li tudo, mas tudo mesmo, sobre Nostradamus e suas profecias.

No fim de 1999 os profetas, sociólogos e futurólogos anunciavam mudanças tremendas na sociedade. Meu livro foi uma obra pontual, isto é, para aquela época, publicado aqui e em Portugal. Morris Cerullo, o profeta, recomendava que armazenássemos água, retirássemos o dinheiro dos bancos etc., porque haveria um problema geral com os computadores e blá, blá, blá. Os futurólogos não podendo mais recorrer a Nostradamus, cujas profecias, segundo seus intérpretes, só previam acontecimentos até outubro de 1999, porque ocorreria o fim do mundo, apelaram para os Zodíacos, feitiçarias e também outro blá, blá, blá.

Mas preciso voltar para as décadas dos anos 80-90 cuja ênfase era a chegada da Nova Era, que combatíamos com vigor. Todos imaginavam a chegada da Nova Era como algo factível e visível, que alteraria o curso da humanidade e afetaria os rumos da igreja. Jornais, revistas, histórias em quadrinhos, filmes, tudo era escrutinado espiritualmente para enxergar ali alguma coisa de Nova Era. Não comprávamos nada que tivesse o nome “Nova Era”, nem aceitamos a versão bíblica da Linguagem de Hoje porque lá num versículo bíblico havia a frase “uma nova era”. Afinal, segundo os profetas da Nova Era o mundo deixaria a era de Peixes, a era de Cristo, e passaria a viver na era de Aquários, a Nova Era.

E, foi assim que no ano 2000 publiquei um artigo falando sobre as mudanças na igreja dos últimos quarenta anos – da década dos anos 60 até o ano 2000. Por que a partir da década dos anos 60? Porque é a época em que me despertei para os acontecimentos do mundo e também porque fui estudar no seminário teológico das Assembleias de Deus no ano 1964. E como havia vivido no ministério aqueles quarenta anos – contando os anos de minha adolescência – pude fazer uma análise dos acontecimentos que afetaram a igreja.

Em 2010 escrevi outra análise sobre os primeiros dez anos do século XXI pontuando alguns fatos que estavam acontecendo na igreja, e, agora nove anos depois, em 2019 é possível fazer nova análise dos fatos, porque, incrivelmente em nove anos o mundo mudou. Mudanças que demoraram para acontecer durante sessenta anos, ocorreram em apenas nove anos. E isso em relação à igreja!

A Nova Era chegou sutil e suavemente. Aquela mudança que todos esperávamos acontecer na virada do milênio, de fato aconteceu, mas, não foi uma mudança brusca, e, sim, lenta e gradual. Deixe-me explicar. A Nova Era é um espírito, não uma organização. Assim como a igreja é um corpo místico, espiritual, – sem levar em conta seu lado organizacional – a Nova Era é um espírito que vem preparando o terreno do anticristo, seja lá o nome que se queira dar. Já existia nos dias de João, o apóstolo, que nos advertia da sua presença, na negação do Cristo encarnado, que era a doutrina dos docetistas da época. (Docetistas vem do grego, Dokeo, aparição, em que se pregava nos dias de João que Jesus era um espírito, e o que foi crucificado era apenas uma imagem do espírito, não um corpo em carne etc. Daí a necessidade de se confessar que Jesus veio em carne. Fazia parte da confissão de fé!).

Esse espírito de Nova Era está presente na igreja e alterou a vida da igreja em alguns aspectos. Vou apontar apenas os mais visíveis, mas, qualquer estudioso pode averiguar e apontar muito mais!

  1. O século XXI afetou a forma de pensar das pessoas em relação a igreja, seus cultos e sua doutrina.

Afetou a fidelidade dos fieis com seus pastores, com os demais membros e com a igreja local. Assim como ninguém mais é fiel a uma marca ou produto, experimentando tudo o que é novidade no mercado, assim também em relação ao compromisso de fé com a igreja. Hoje aqui, amanhã acolá; o dízimo aqui, amanhã acolá etc. A mesma tendência política e social está presente na igreja. Infidelidade. Até porque os pastores não fidelizam os membros de sua congregação nem estes o pastor local. A novidade de amanhã acabará com o que a pessoa vive hoje. Este tema, por si só abrange vários aspectos que não quero apresentar aqui, porque senão o texto ficará muito longo e seu celular apitou indicando que chegou uma mensagem nova!

  1. O século XXI afetou espiritualmente os irmãos em relação aos cultos das igrejas.

Os cultos se tornaram mais antropocêntricos – já o eram – isto é, voltados para o homem. Toda a programação do culto – se é que existe programação em algumas igrejas – é voltada para o homem. Afetou o ensino da igreja. Talvez em sua igreja ainda existam os tais “cultos de ensinamento” ou “doutrina”, em que os irmãos vêm municiados de caderno, caneta e Bíblia para aprender a palavra de Deus, mas isto é raridade! Quando me refiro a doutrina não estou falando do ensinamento de usos e costumes, como era no passado, mas da doutrina de Deus, de Cristo, do Espírito Santo, doutrina da igreja, das últimas coisas, da fé etc. Cada um desses pontos poderia ser analisado longamente! Conheço algumas igrejas em que o culto de ensinamento é o maior culto da semana!

  1. Afetou a hinódia da Igreja.

Nunca houve tanto desprezo à hinologia tradicional como nesses dias. Esquecem os líderes de louvor e seus pastores que os hinos que temos nos hinários são frutos de mais de quinhentos anos de história – e porque não dizer, de dois mil anos de história, pois qual igreja entoa hoje kirye eleison que os irmãos do primeiro século cantavam? Esquecemo-nos de que temos um arcabouço doutrinário nos hinos compostos por gente comprometida com Jesus, que escreveram em meio à dor e ao sofrimento. Hoje raramente se entoam cânticos que falem da vinda de Cristo; cânticos a respeito da vida eterna e do céu são ouvidos apenas em funerais, e, as pessoas que se convertem não conseguem criar uma raiz hinódica, porque a cada culto aprendem um cântico novo. Isso é bom e ruim. Bom, porque revela a multiforme graça de Deus concedida aos poetas e compositores; ruim porque os novos agregados que aderiram à igreja nesses últimos anos não têm mais um cântico “raiz” do qual se lembrarão por toda a vida.

  1. O espírito presente no século XXI afetou substancialmente a mensagem do Evangelho.

As pregações expositivas desapareceram. São ouvidas raramente em escolas bíblicas de obreiros; nos cultos da igreja, jamais! Por algumas razões:

Primeiramente, porque poucos são os pastores que sabem interpretar uma passagem bíblica e discorrer sobre ela.

Segundo, porque sermões expositivos são longos e as pessoas vivem apressadas; não pensam, não raciocinam, não conseguem acompanhar um pregador por mais de meia hora, e nem levam mais a Bíblia para os cultos. Ops! Seu celular apitou!

Terceiro, as pregações de hoje são quase todas temáticas, cujos temas giram em torno de alguma necessidade diária, apontando soluções diversas. Às vezes sem nunca mencionar o nome de Jesus!

  1. Afetou e formou uma geração espiritualmente rasa na fé.

Consequentemente estamos criando uma geração de crentes sem fundamentos, sem raízes, sem conhecimento bíblico, pessoas superficiais na fé. Algumas versões bíblicas induzem a essa pequenez doutrinária, mudando os termos bíblicos para termos mais “aceitos”. Não sei se os crentes de hoje aguentariam um interrogatório, uma polícia religiosa, uma perseguição sem negar a Cristo! Afinal, muitos pregadores de hoje são apenas diversionistas da fé; que se especializaram em fazer o povo rir; que gastam horas preparando frases interessantes e prontas. Raramente se ouve o povo chorar por seus pecados! Os pregadores antigos gastavam horas preparando seus sermões!

  1. Fez que as pessoas se submetessem às sutilezas da Nova Era sem se aperceberem.

O espírito de Nova Era ou espírito do anticristo está presente na administração dos recursos financeiros das igrejas em que pastores enriquecem enquanto seus liderados trabalham duro para se sustentar. Está presente nos seminários teológicos em que a filosofia sobrepuja a teologia. Está presente nas Convenções Evangélicas em que se gasta mais tempo tratando de coisas administrativas, do pecado de pastores, do que de assuntos espirituais. Está presente na obra missionária em que se manda para o campo pessoas sem preparo, quando se devia mandar os melhores da igreja!

  1. A igreja abraçou o “politicamente correto”, perdendo sua voz profética na sociedade.

Que pastor pode confrontar um prefeito, deputado ou governador se ganhou vários cargos comissionados – CCs – para seus familiares ou membros da igreja? Perder a cabeça, isto é, dinheiro, bens e reputação, como João Batista que confrontou a Herodes? Ou Elias que confrontou a Acabe? Ou Jeremias que confrontava os reis, sacerdotes e profetas da época?

  1. Afetou a cultura do Reino levando as pessoas a assimilarem a cultura do mundo.

A igreja assimilou a cultura do mundo e não vem conseguindo trazer a cultura do reino. Quando falo em cultura do mundo não me refiro a formas de se vestir, das aparências, da música e suas melodias, do uso de instrumentos musicais e tecnologia etc., mas da cultura do Reino de Deus que é viver a favor do próximo. Examine o leitor em que consistia a pregação do Reino de Deus que João batista apregoou; que Cristo anunciou, e que os apóstolos proclamaram. Examine a história da igreja do primeiro século e ficará surpreso em ver que nossa pregação e estilo de vida, hoje, é tipo algodão doce, que se dissolve quando se tira do saquinho plástico.

  1. Suicídio de pastores.

O suicídio de crentes, e especialmente de pastores pode ser – e estou investigando a respeito, por isso é apenas uma suposição – resultado dessa investida satânica no mundo espiritual sem que a igreja perceba. As igrejas não querem mais ministério de libertação nem de cura da alma porque seus teólogos acreditam que tudo é resolvido na salvação. Assisti a um vídeo em que teólogos brasileiros afirmam que os salvos, caso se suicidem entrarão na eternidade com Cristo, e este ensinamento é indiretamente um incentivo a tal prática!

Que houve uma mudança no mundo espiritual a partir do ano 2000 disso estou certo. No entanto, boa parte dos crentes prefere arrazoar com a ciência, esquecendo que vivemos entre dois mundos, e que o mundo espiritual influencia o mundo natural! Meus amigos, o espírito do anticristo invadiu a igreja!

Semana que vem vou publicar o artigo sobre o suicídio de pastores.

E, por aí vai!

 

About Pr. João de Souza

Pastor, escritor, historiador e pesquisador bíblico

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4 Comments on “ATENTOS AOS SINAIS DOS TEMPOS”

  1. Triste isso pastor João , sou novo na idade e na fé, mais nunca me convenceu esses louvores e pregações de prosperidade e muita falta da Cruz, hj pregam que se vc não for na igreja vc não tem DEUS , mais tem muita igreja que ao invés de levarmos pra perto de DEUS , faz uma lavagem cerebral e nos afasta da verdadeira intimidade com DEUS… JAJA do feito que as igrejas estão não vai mais precisar se negar a CRISTO, pois muitos não conhecem verdadeiramente CRISTO…

  2. Pr. João, graças a Deus por tua voz profética num tempo de tanta displicências no que diz respeito ao andar com Deus. agora parece ser a vez dos “desigrejados”, e o pior é que temos dentro de nossas igrejas, um monte se não maioria, de desigrejados, porque não estão de fato inseridos no corpo; sem compromisso nenhum com o Reino, vão ao templos como descargo de consciência, até porque, pagam ali suas mensalidades ( dízimo), e se acham no direito de irem pra conferir como “andam as coisas por lá”….

  3. muito bom meu irmão! Temos aí uma nova cruzada pela frente. Mas, percebo que há muitas pessoas sinceras, buscando realmente se localizar nessas espessas trevas.
    A nós cabe conduzir as ovelhas na direção certa: Apocalipse 22.11-12. Grande abraço e continue firme, meu mestre!

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