Torcer ou não torcer pela seleção brasileira?

Esta dúvida se apoderou de mim através de uma mensagem de voz de uma senhora de oitenta e quatro anos que ficou sabendo do meu estado de saúde. Ela falava e soluçava enquanto dizia: Como vou torcer pela vitória da seleção brasileira enquanto neste país não se pode contar com leitos em hospitais para a população? Ela é uma brasileira que faz quarenta e cinco anos trabalha na recuperação de viciados em drogas e sustenta sua ONG sem ajuda do governo, apenas com o que a chácara produz.

Ela ficou sabendo que eu ficara trinta horas na emergência do hospital, sentado numa cadeira para fazer um exame de emergência; eu já havia perdido metade de meu sangue pelas fezes e ali estava eu, sentado, sem leitos disponíveis, com as macas da sala de emergência ocupadas por enfermos em piores condições que eu. Trinta horas em jejum completo, sentado, varando a noite em claro, esperando fazer um exame. Na sala onde eu estava havia três pessoas transplantadas que recorreram ao hospital em busca de socorro médico, seja porque tinham febre, vômitos ou não se sentiam bem. Elas estavam em pior situação que eu: Um casal estava ali havia quatro dias esperando fazer exames e obter um leito. Todos sentados em cadeiras!

Enquanto isso, milhões de brasileiros pintam suas calçadas, colocam bandeirinhas e fazem festa pela seleção. Algumas igrejas colocam telões para seus paroquianos assistirem os jogos. Não os critico: Nós brasileiros somos vítimas do ópio entorpecente que a paixão pelo futebol injeta no povo a cada quatro anos. Quando a seleção joga, o Brasil para! O brasileiro esquece sua dor, se aliena dos problemas da nação e só se acordará quando a seleção ganhar a copa ou for eliminada! A paixão pela seleção é como um pó dourado lançado sobre uma sucata dando-lhe um brilho dourado. Daqui a alguns dias o brilho desvanece e o povo cai na real!

Como torcer pela seleção brasileira enquanto em minha cidade 500 pessoas vivem nas ruas, dormindo sob pontes, viadutos e canteiros de avenidas? Enquanto todos os hospitais da cidade fecham a emergência por falta de espaço para atender os enfermos? Como torcer pela seleção se o povo é ignorado sem boas escolas, hospitais e segurança? Como torcer pela seleção, se todos os dias batem à porta da minha casa homens, mulheres e crianças pedindo um prato de comida? Mas, a seleção entorpece e nos deixa como zumbis drogados sem saber o rumo a seguir!

Como torcer por uma seleção que joga pela fama e pelo dinheiro e seus jogadores vivem nababescamente? Torcer por um treinador que ganha cerca de dois milhões de reais por mês? Jogadores intocáveis, protegidos como se fossem deuses, reverenciados como Hermes, que, baixado dos céus, conforme os gregos visitava o povo para lhes interpretar as ordens de Zeus. Zeus, o grande olho de Brasília usa a seleção para dizer ao povo: Está tudo bem! Não me entenda mal: Gosto de futebol, mas não posso esquecer a dor do verdadeiro Brasil.

E, ali no hospital sentado numa cadeira durante trinta horas, sem ter como dormir lembrei-me dos nossos políticos que à menor dor de cabeça têm à sua disposição os melhores hospitais pagos com o meu dinheiro, com o seu dinheiro! Vivemos os três Brasis: O da ala superior que usufrui das regalias do governo e que não sabe o valor das coisas; o da classe média que, à muito custo consegue pagar um plano de saúde e o Brasil dos pobres. E, são esses pobres hipnotizados, drogados e entorpecidos pela seleção que gastam dinheiro com a queima de foguetes e se deliciam com a migalha que o Estado lhes confere! É este povo que explode como pipocas dando pulos de alegria, entorpecido. Entendi o choro dessa amiga que trabalha recuperando viciados e que também não tem plano de saúde.

Mas, não posso de deixar de elogiar o outro Brasil. O Brasil dos médicos, enfermeiros e ajudantes que são incansáveis em seu dever. Alegrei-me em ver os médicos de plantão, em pleno domingo, atendendo solicitamente cada paciente; a equipe de enfermagem se desdobrando em sorrisos e amores como se estivessem cobertos por uma camada dourada de misericórdia, também estes, sofredores de um sistema perverso de saúde do governo. Este é o Brasil que funciona! O SUS funciona graças aos brasileiros dedicados! Funcionaria melhor se o governo fizesse sua parte!

Fiquei sabendo que a equipe gástrica que me faria a endoscopia para descobrir a causa dos sangramentos estava de folga, e foi convocada num domingo às 18 h apenas para me atender. São pessoas que abriram mão do tempo com a família e se deslocaram para o hospital para atender unicamente uma pessoa! Esses não estão hipnotizados nem engolem o ópio do governo; esses são os que fazem o Brasil!

Como torcer pela seleção brasileira? Eu torço pelo Brasil que se mata trabalhando; torço por gente que pensa na gente e não por jogadores e treinador que ganham num mês o que ninguém consegue ganhar numa vida de trabalho! Pensando bem: Quero ser o brasileiro que cuida de brasileiros como a equipe médica que me atendeu!

#Prontofalei

2 Responses to Torcer ou não torcer pela seleção brasileira?

  1. Roni Pauli disse:

    Lamento mas, podem até discordar mas só há um BRASIL e sendo PATRIOTA quero o melhor pelo meu país em TODAS as situações! Você pode amar só a mão de uma pessoa ? Pronto falei!

  2. Teresa disse:

    Oi pastor. Espero que hoje, decorrido aproximadamente 2 meses do início da copa, estejas bem. Sempre gostei de futebol e sempre torci muito, mas neste ano assisti poucas vezes, mas não torci. Esteva com um sentimento total de frustração, por um país de milhões de desempregados e governantes sem misericordia de ninguém, preocupados em se safar dos desvios e delações de corrupção.
    Este ano não era ano da copa, mas de nos preocuparmos com as eleições em outubro, mas ciente de que só o Senhor pode ter misericordia de nós e de mudar a situação desta nação. Oro para que Ele nos ajude. Deus abenções o Senhor.

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