Provérbios 31 – A utopia da mulher virtuosa

Utopia é o termo criado por Thomas More (viveu entre 1480 e 1535) e idealizou em seu livro UTOPIA a sociedade perfeita – surgindo a partir daí a ideia de uma sociedade igualitária. Isto é, um sonho, uma coisa impossível de se ter!
O texto de Provérbios 31.10-31 em minha análise é o da mulher utópica, inexistente, e o texto precisa deve ser entendido à luz do contexto cultural da época de Salomão. Por sugestão da minha esposa vou chamá-la de super-mulher.

Primeiro. Não é Salomão quem escreve, mas o rei Lemuel que recorda as palavras que lhe ensinou sua mãe. “Palavras do rei Lemuel, de Massá, as quais lhe ensinou sua mãe”.

Segundo. Esse era o sonho da mãe do rei Lemuel: Uma esposa mais que perfeita! “Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de finas jóias” (v. 10). Resposta: Ninguém. Essa mulher não existe!

Terceiro. A mulher no contexto do AT não tinha a autonomia financeira nem social para fazer todas as coisas do restante o capítulo. Não se encontra na história bíblica mulheres que eram chefes da casa, negociantes e que superavam seus maridos.

Quarto. Onde residem as discrepâncias? Ora, se se levanta de madrugada e dá ordens às servas, então é uma mulher rica (v. 15), o que contrasta com o v. 13-14 em que ela mete a mão na máquina de costura (na roca) para tecer a lã (vv. 13 e 19). Uma mulher rica dá ordens e não precisa desfiar a lã e fazer o fio.

Outra discrepância está no v. 16: “Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com as rendas do seu trabalho”. Não se vê no contexto da mulher do AT tal independência financeira, visto que o esposo era quem negociava e cuidava das finanças.

Quinto. É a mulher dos sonhos de qualquer homem, e era o que a mãe de Lemuel queria para o filho.
Hoje, este texto, geralmente é ensinado nos círculos de oração, nos congressos femininos por mulheres solteiras, visto que anelam ser a mulher de Provérbios 31. Se essa mulher fosse verdadeira haveria menção dela em outras partes do Antigo e do Novo Testamento.

Quem sabe, por ser a mulher padrão ou a super-mulher tão sonhada por pastores, as esposas dos líderes se sentem diminuídas ao lerem este texto da Bíblia, sentem que sua baixo auto estima piora, porque, quem sabe tudo o que uma esposa-líder tem hoje – com raríssimas exceções as “apóstolas” ou esposas de “apóstolos” é um cartão de crédito limitado para comprar algumas coisas ao mês; mas a super-mulher de Provérbios tem muitas empregadas, é negociante, vende e compra. Um detalhe, porém, deixa as mulheres de hoje extasiadas com essa mulher: “A força e a dignidade são os seus vestidos e, quanto ao dia de amanhã não tem preocupações…” (v. 25). Cada domingo aparece no culto com um vestido novo!

Que esposa de pastor ou de líder hoje não se preocupa com o que vestir e comer amanhã?
A mulher verdadeira, sim, está no v. 28: “Levantam-se seus filhos e lhe chamam ditosa”. Ah! Isso acontece aos domingos, depois que todos enchem a barriga com o almoço preparado por essa mulher formidável!

No entanto, apesar de que essa mulher, a meu ver não existe, existem, sim, mulheres hoje que, dentro de suas limitações são mais virtuosas que essa mulher que a mãe de Lemuel sonhava pro seu filho.

Por que? São mulheres que fazem milagres com o pouco dinheiro que têm. Que suportam esposos machões e autoritários e ainda sim são felizes. Cuidam dos filhos e depois dos netos. Existe, sim, um tipo de mulher virtuosa que consegue fazer a carne do almoço se multiplicar; que conta as moedas para comprar o pão; que todos os dias está no fogão e, suporta os muitos hóspedes que seu marido traz pra dentro de casa – sem combinar com a esposa! Essa mulher virtuosa não é utopia, é verdadeira.

Cada esposo tem uma mulher dessas dentro de sua casa, em grau menor ou maior melhor que a de Provérbios 31.
Senhora mãe de Lemuel, se a senhora vivesse hoje, certamente sonharia com uma esposa – você mesma – morando numa mansão, cercada de empregadas, com um carro último tipo na garagem, saindo todos os meses para fazer compras em Nova Iorque ou Paris. Lemuel, a mulher que sua mãe sonhou pra você existe, sim, nas casas simples de madeira, de pau a pique, buscando água na fonte; fazendo faxina pra ajudar no sustento da casa; varando a noite na máquina de costura, ajudando no círculo de oração, dirigindo o coral e, ainda que cansada satisfaz as necessidades sexuais de seu esposo.

Estas, sim, são mulheres virtuosas! A que sua mãe anelou foi sonho dela!

5 Responses to Provérbios 31 – A utopia da mulher virtuosa

  1. Olá amigo João de Souza, desculpe se me atrevo a escrever estas poucas linhas, para um comentário rápido de um testemunho de vida de duas mulheres que me surpreenderam pela vida vivida entre nós. Uma porque a comparei elas a esta mulher virtuosa. Em ambos os casos elas trabalhavam ajudando, ou por conta própria. E com isso ajudavam nas despesas da casa e na educação dos filhos, Uma delas era minha mãe, a outra esposa de um amigo meu, que por muitos anos acompanhei esta família no seu dia a dia. E a tinha como uma segunda mãe, dado a sua simpatia e carisma em fazer amizade com as pessoas. Não vou citar o nome dela, uma por ela ser simples e que também como meu pai, nunca desejou ser mencionado pelos seus feitos. Por acreditar na recompensa celestial. Graça e paz!

  2. Gleyce disse:

    Texto pereito! Parabens!

  3. Le disse:

    As vezes me pergunto se nesse mundo góspy a fora, avisaram que a mulher virtuosa idealizada pela rainha-mãe de Lemuel tinha criadas, servas e funcionários a seu serviço.
    Quer dizer… seria muito triste se homens esperassem que a mulher maravilha desse conta daquela lista sozinha e se decepcionassem, por causa desse mero… detalhe. Não é mesmo?
    Seria terrível se mulheres tentassem alcançar esse ideal e se sentissem frustradas por uma simples… omissão técnica.
    Ou será que apenas essa parte do texto deve ser relativizada? Interpretada conforme o contexto histórico?

    https://celeumax.blogspot.com.br/2016/05/r00007-mulher-virtuosa-e-suas-servas.html

  4. Mauro Fraga disse:

    Incrível a falta deste pastor! Com uma visão de mundo baseado no modelo ocidental de riqueza e valores interpreta a Palavra de forma equivocada e distorce o teor dos escritos bíblicos. Ser rico para um judeu ou caldeu segundo o ponto de vista divino não é ser rico no modo ocidental onde a pessoa vive uma vida vã apenas dando ordens e considerando o trabalho coisa de gente de segunda classe…de escravos. A mulher naquela época era rica porém, saber tear com bom gosto e cozinhar eram atribuições das mulheres… mesmo não sendo ela quem realiza cada função (assim como o cheff de um restaurante fino). Claro que se trata de uma mulher ideal, porém, que maior idealismo pretender ser igual a Paulo ou a Jesus??
    Ser independente naquela época era possível sim! Pois não se trata de independência como de hoje em dia: A mulher faz o que bem entende e só “comunica” ao marido o que fez. Naquela época uma mulher que usava o manto tinha sobre sí a autoridade delegada do marido e era respeitada por tal façanha (daí a admiração da mãe de Lemuel). É como se ela dissesse ao filho: Não busque pelos atributos físicos… Não se preocupe com a beleza… Há outros atributos mais importantes… Aliás, será que foi o pastor mesmo que escreveu ou a esposa dele? Bem, era isso!

  5. Genilda Silva disse:

    Esse texto me tirou um fardo de cima das costas, porque me via como uma mulher fracassada em várias áreas, visto que não cobria muitas partes da descrição da mulher de Provérbios 31. Nós mulheres, somos muito cobradas, pela sociedade na educação dos filhos, pelo marido para o bom andamento da casa, pelo chefe no trabalho produtivo, na igreja como servas obedientes e solícitas, e é como se fossemos puxadas para todos os lados ao mesmo tempo, tendo que ser mesmo uma super mulher que não erra, que não falha, que não falta, e quando não alcançamos esse objetivo da super, mega, hiper mulher poderosa do texto nos sentimos frustradas e infelizes. Muitas pregações a este respeito nos colocam num beco sem saída, sem perceber que também temos nossas necessidades, que também precisamos de apoio, de ajuda, não apenas de estar a postos servindo a todos o tempo inteiro com um sorriso no rosto.

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