O sono que precede a morte

Existem hoje quatro tipos de pessoas na igreja: 1. Os membros ativos, aqueles que participam efusivamente da vida da igreja; 2. Os membros passivos: Aqueles que apenas freqüentam cultos e cumprem suas funções religiosas; 3. Os desigrejados: Aqueles que decidem fazer da casa sua igreja e; 4. Os mornos: São pessoas que nunca saíram da igreja, mas não fazem mais parte dela. É sobre este quarto tipo de pessoa que quero abordar neste artigo.

Tenho à mente duas irmãs que conheci: A irmã Anair, já falecida, e a Rebeca – nomes fictícios, obviamente, mas pessoas reais.

Irmã Anair estava com 88 anos, semi-inválida e, por não poder se locomover vivia em seu minúsculo apartamento sendo atendida por uma empregada. Vivia na companhia de seus cachorros, que se acostumaram com minhas freqüentes visitas e se acomodavam aos pés dela. Mesmo arquejando sob o peso da idade, convivendo com a osteoporose, gostava de preparar seu próprio alimento. Todo mês ela me aguardava num determinado dia da semana, no mesmo horário, que eu lhe levasse os elementos da comunhão: O pão e o vinho. Esperava-me pronta, às dez da manhã. Sobre a mesa, bem visível estava o envelope de dízimos que ela separava de sua aposentadoria. Mulher fidelíssima. Enquanto eu lhe ministrava a palavra chorava, se emocionava e falava em línguas. Não podia ir aos cultos, mas continuava fiel a Deus, sempre perguntando pelos pastores e seus familiares. Depois de vários anos levando a ceia mensalmente pra ela, faleceu.

Como Anair, muitas pessoas idosas aguardam que eu lhes leve a comunhão em suas casas, por estarem impossibilitadas de irem ao culto. Apenas este fato as faz sentir acolhidas e congregadas na igreja.

Contrário a esse exemplo, falemos de Raquel, uma irmã de 70 anos, casada, vivendo com seu esposo, um obreiro famoso da denominação, cercada de netos, que não arreda o pé de sua casa. Ela que foi criada na igreja desde pequenina na Escola Dominical, hoje não se interessa em ir a culto algum, não freqüenta sequer as reuniões de ceia da igreja, não visita ninguém nem recebe visitas em sua casa. Faz anos que não participa da comunhão dos santos, não toma a ceia do Senhor, não vai a culto algum, e, no entanto, não está “desviada” no sentido estrito do termo. Quer dizer, não vai aos bailes da terceira idade nem freqüenta reuniões de senhoras de espécie alguma. É uma crente, que não é crente e que não convive com crentes. Têm vários carros e parentes à sua disposição que poderiam levá-la a qualquer culto, mas recusa-se a sair de casa. Acomodou-se à vida do lar.

Esses dois exemplos representam hoje uma parcela de pessoas membros de igrejas que vem aumentando consideravelmente. Se por um lado existem remanescentes fieis que fariam de tudo para ir a um culto da igreja se pudessem se locomover e se alguém os levassem, por outro existem membros de igrejas que não manifestam desejo algum de freqüentar cultos e de conviver entre os irmãos, e, nem sequer se interessam em tomar a ceia do Senhor.

É sobre esse quarto tipo de pessoa que abordo neste artigo.

Raquel é apenas uma dentre centenas de pessoas que conheço que não vão mais aos cultos da igreja, não anelam pela comunhão dos crentes, não recebem visitas de irmãos em suas casas, não dão ofertas, nem entregam dízimos, mas também não convivem com pessoas que não são da igreja. Num sentido real tais pessoas não se desviaram seguindo o mundo, mas também não estão mais na igreja. Todavia, se dizem crentes, mas, não vivem mais os preceitos da fé cristã, não praticam seu devocional diário de leitura da Bíblia e oração, ouvindo às vezes seus cânticos em CDs, mas, na maior parte do tempo com o rádio ou a televisão ligados, acompanhando cada noticiário e cada novela. Cuidam de seus poucos interesses: a casa, o trabalho doméstico, os netos, a horta e, vez que outra fazem compras, e parecem felizes.

 Talvez, para se analisar este tipo de crente seja necessário abordar os vários acontecimentos durante a vida de igreja a que tais pessoas foram submetidas. Mas, estudando os vários casos descobri que grande parte desses zumbis espirituais teve uma infância, adolescência e juventude ativa na igreja, cantando em corais, participando de cultos ao ar-livre, visitando hospitais e, depois de casados – tanto homem como mulher – participaram de grupos de casais, fizeram cursos e foram bem ativos. A pergunta é: O que aconteceu na jornada da vida cristã que as alienou da vida de Cristo? Sim, porque a vida de Cristo se reflete na igreja e no culto congregacional.

Não estou afirmando apenas que se afastaram da igreja, porque, em certo sentido essas pessoas crêem que são crentes e membros de igrejas, mas afastaram-se de Cristo. Também, em certo sentido, não abandonaram a fé freqüentando religiões de ocultismo. Não. Continuam crentes, digamos, noutro plano, pois, ao abandonarem sua congregação e não cumprirem seus deveres cristãos, biblicamente não são mais crentes em Jesus Cristo.

São pessoas que só existem em igrejas históricas, como Batistas e Assembleias de Deus – para citar apenas essas duas. Que fenômeno é esse?

Não me refiro aqui aos de-si-gre-ja-dos, pessoas que decidiram viver a vida cristã em suas casas e que se alimentam espiritualmente de mensagens que ouvem em programas de rádio, cultos na TV, recebem amigos cristãos em suas casas, tiram tempo para orar com eles, estudar a Palavra, encomendam livros e CDs de pregações pela Internet, mas que não freqüentam igreja alguma. Esse é outro caso de estudo, e não é o meu tema aqui. Refiro-me aos crentes que não são crentes e que não participam da vida dos crentes, mas que se dizem crentes!

O que leva uma pessoa a perder o desejo de adorar a Deus com toda a congregação? O que leva uma pessoa a abandonar a mesa do Senhor? Tentei encontrar respostas às minhas perguntas, mas, como não fiz pesquisa de opinião para escrever este artigo, o que o tornaria rico em detalhes, imaginei os seguintes aspectos:

  1. Acomodação. É comum que pessoas idosas se acomodem depois de aposentadas, mudando-se para cidades litorâneas, com praias e mar, residindo em chácaras ou vivendo a rotina diária de um apartamento na cidade, olhando da janela o mundo passar lá fora. O lado negativo desse estilo de vida é que a pessoa deixa de ser criativa – não que lhe falte coisas a fazer, como cuidar da horta e pintar a casa, mas, perdem a criatividade até para abrir a Bíblia sagrada.

A acomodação espiritual geralmente anda de mãos dadas com a acomodação social. Em outras palavras, as pessoas passam a viver na contramão dos exemplos bíblicos em que as pessoas viveram até o último dia de suas vidas em profunda comunhão com Deus e sua palavra. Ana, com 84 anos, avançada em dias “não deixava o templo, mas adorava noite e dia em jejuns e orações” (Lc 2.36). Ana viu o Messias antes de morrer; os crentes zumbis de hoje viram o Messias e espiritualmente já morreram. Simeão, ao que parece homem idoso estava tão atento à voz do Espírito Santo que tomou a Jesus em seus braços, dando-se por satisfeito e orando: “Agora, Senhor, pode me levar: Já vi a tua salvação!” (Lc 2.26-27). São pessoas que não se acomodaram espiritualmente depois de velhos.

Essa acomodação espiritual dessa nova classe de crentes pode ser vista em seus atos diários. São pessoas que não se envolvem em intercessão a favor de outras pessoas, não lhes dói na alma o sofrimento alheio, não se envolvem sequer com seus vizinhos enfermos, não participam das associações que cuidam do seu bairro, não vão mais aos cultos, mas, são crentes!

  1. Aculturação da fé. Depois de anos participando da vida da igreja esse tipo de pessoa criou sua própria cultura de espiritualidade, sim, porque o cristianismo tem seu aspecto cultural e o seu aspecto espiritual. O próprio pentecostalismo se tornou uma cultura social indiferente às implicações espirituais. Portanto, a pessoa crê que está salva, que já fez o suficiente na igreja e que pode viver a vida cristã independentemente dos demais irmãos. É uma independência total, porque não dependem dos irmãos da igreja e não ajudam os da igreja que precisam ser ajudados. São árvores velhas corroídas de caruncho, ocas e que não mais dão frutos.
  2. Cristãos mornos. Não se trata aqui de perfídia – quando se abandona um amor por outro, neste caso, abandonando Jesus pelas coisas do mundo -, mas da mornidão a que se referiu Jesus: “Assim, porque és morno e nem és crente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” (Ap 3.16). Se pelo menos praticassem alguma boa obra, como recomendou Paulo a Tito: “Agora, quanto aos nossos, que aprendam também a distinguir-se nas boas obras a favor dos necessitados, para não se tornarem infrutíferos” (Tt 3.14), dariam algum fruto.

São pessoas que não mais frutificam. E por que? Porque não permanecem em Cristo: “Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto…” (Jo 15.5). Então, existem hoje crentes que se dizem crentes, que não vivem como crentes, mas que ainda se consideram crentes, apesar de não cumprir seus deveres devocionais, litúrgicos próprios de um discípulo de Cristo, além de não terem estilo de vida de crente.

Que exemplo nos deixaram Josué e Calebe. Este último com 85 anos de idade teve forças para conquistar Hebrom e expulsar dali os gigantes (Js 14.10-11).

São pessoas para quem o Salmo 92.12-14 é meramente poético, casual e terreal: “O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano, plantados na Casa do SENHOR, florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor”.

Assistimos perplexos a uma geração de velhos na igreja que não frutifica, e que se acomoda em casa espiritualmente. É a nova classe espiritual da igreja; gente que não está dentro nem fora da igreja; anela o céu, mas desde que seu lugar seja bem longe dos demais irmãos!

Misericórdia! É o humanismo em suas mais diferentes formas invadindo a espiritualidade dos irmãos!

2 Responses to O sono que precede a morte

  1. Amem, obrigado por nos escrever matérias com temas tao importante na vida da igreja hoje.

    João,tu poderia me mandar algo sobre os “desigrejados”pois tenho alguns amigos que tem essa opinião e já estão praticando.

    obrigado.

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