Pluralidade da Fé – Parte III

Paulo apresentou em suas epístolas a possibilidade de se viver uma vida cristã com práticas alternativas, mas não se pode confundir seus ensinamentos com pluralidade da fé, como falei nos dois artigos anteriores. Pluralidade da fé é quando os ensinamentos básicos da fé cristã sofrem transformações decorrentes da filosofia e dos ensinamentos de homens. Tratei disto com muita seriedade no artigo anterior. Escrevendo aos gálatas, o apóstolo é bastante claro:

Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema (Gl 1.6-9).

Além do pluralismo teológico que infectou a verdadeira doutrina da fé, outro tipo de pluralismo vem açoitando os crentes nos dias de hoje: a prática de costumes e leis de homens e a volta ao judaísmo. Os líderes evangélicos, em sua maioria, desconhecem o que significa “graça de Deus”. Para alguns, graça de Deus é tudo de que se precisa para poder suportar os legalismos, desmandos e leis que os homens criam, tornando o caminho ainda mais estreito do que Jesus deixou.
Os homens criam leis, regras religiosas, determinam o que deve e o que não se deve usar; o que deve e o que não se deve comer, onde ir e onde não ir; o que fazer e o que não fazer; determinam o que é certo e errado no aconchego do casal no lar e prendem com as algemas da ignorância os que querem usufruir da verdadeira liberdade do evangelho da graça de Deus.
Os irmãos da Galácia haviam recebido um evangelho puro sem os ingredientes do judaísmo. Não era necessário manter as práticas judaizantes, como o guardar as festas, dias de luas, abstinência de alimentos nem a circuncisão. Receberam um evangelho cuja única condição era de serem fiéis a Jesus Cristo e por ele darem suas vidas, no entanto, os irmãos judaizantes ali chegaram exigindo dos novos crentes obediência às leis religiosas dos judeus.
A mesma coisa aconteceu quando os irmãos judeus de Jerusalém foram a Antioquia e se depararam com uma comunidade gentílica que recebeu a graça e a fé em Cristo Jesus. Para aqueles judeus, os novos irmãos deveriam obedecer os ritos judaicos, especialmente o da circuncisão. Paulo teve coragem e ousadia como frutos da revelação que de Deus recebera de abolir a circuncisão, uma prática milenar dos dias de Abraão e bateu de frente com os apóstolos que estavam em Jerusalém, especialmente Pedro.
Hoje, se Paulo visitasse as igrejas do Ocidente se depararia com novos ritos judaizantes e novas práticas religiosas, repetindo novamente que estamos nos desviando da simplicidade do evangelho de Cristo.
Para Paulo, a vida cristã deveria ser vivida de maneira alegre, inda que em meio as muitas tribulações. Nada de proibições e legalismos frutos da filosofia dos homens, diria Paulo.
Os pastores que hoje se corromperam com a política, que adulteram, que roubam de outros e da igreja, que não têm ética ministerial nem vida com Deus, Paulo nem os consideraria irmãos em Cristo. Quanto a isto ele é claro:

Na outra carta que escrevi a vocês, eu recomendei que vocês não tivessem nada a ver com gente imoral. Eu não quis dizer que neste mundo vocês devem ficar separados dos pagãos que são imorais, avarentos, ladrões ou que adoram ídolos. Pois, para evitar essas pessoas, vocês teriam de sair deste mundo. O que eu digo é que vocês não devem ter nada a ver com ninguém que se diz irmão na fé, mas é imoral, ou avarento, ou adora ídolos, ou é bêbado, ou difamador, ou ladrão. Com gente assim vocês não devem nem comer uma refeição (1 Co 5.9-11 – NTLH).

Paulo encontraria milhares de pastores que são avarentos, beberrões, imorais – no sexo e nos negócios – que processam seus pares nos tribunais de justiça e que estão sendo perseguidos pela Polícia Federal, não porque pregam o evangelho, mas porque são ladrões! Alguns têm o amparo da lei porque são deputados federais imunes a processos judiciais comuns. Privilegiados.
Em Romanos 14 Paulo aborda as questões da vida cristã ensinando que os irmãos devem aprender a liberdade que cada pessoa tem em Cristo. No entanto, ele é rígido e consistente com a vida de santidade exigindo que os irmãos abandonem a prostituição, a vida de adultério, de mentira e que tenham vida honesta em seus negócios.
Você é vegetariano? Ou você gosta de comer carne? Viva como você gosta de viver, afirma Paulo. E mesmo que a carne tenha sido sacrificada a ídolo, vá em frente, consagre a carne e coma-a com alegria e ações de graças! (Veja 1 Coríntios 8). Que é o ídolo? Para o que ainda adora ídolo ele representa alguma coisa, mas para o que não adora ídolos, a carne sacrificada a ídolos pode servir de alimento!
Você gosta de guardar o sábado? Guarde-o. Prefere o domingo? Está bem. Gosta de celebrar as fases da lua? Faça-o. Você acha que não tem sentido alguma celebrar as festas da lua? Está bem. Podemos viver em harmonia, praticando a vida cristã com liberdade, sem proibições. Viva como puder. Observe, no entanto, a lei do evangelho de Cristo!
Esta é, em síntese, a pluralidade da prática da vida cristã que Paulo apresenta como solução aos conflitos da vida; aos conflitos relacionais, à perfeita convivência entre os irmãos.
Simples, não é? No entanto, os judaizantes ressuscitaram o judaísmo e voltaram a impor práticas da lei aos gentios que creram em Cristo Jesus. Hoje, quando visitamos as igrejas deparamo-nos com réplicas da arca da aliança; do candelabro e até de representações de animais sendo sacrificados… material decorativo, dizem alguns, mas que na realidade refletem o espírito do judaísmo que voltou a entrar na igreja de Cristo Jesus.

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