Em cima do muro

Em cima do muro

27 de junho de 2014 3 Por Pr. João de Souza

Lucas registra o episódio de Trôade em que Paulo, o pregador, se prolongou demasiadamente – sob a ótica atual pregou muito tempo – e um moço que estava assentado à janela “vencido pelo sono”, adormeceu e caiu do terceiro piso. Era meia noite. O jovem devia estar cansado. Êutico, “levantado como morto” foi socorrido por Paulo que, certamente orou por ele e o ressuscitou. Este último dado não aparece no texto.

Possivelmente havia outras pessoas “vencidas pelo sono” naquela reunião, mas não caíram da janela porque estavam assentadas no auditório! As pessoas que costumam se assentar na janela ou em cima do muro caem com mais facilidade. O que se percebe hoje na igreja é exatamente isto: Existem muitas pessoas que não se posicionam, não têm ponto de vista firme; e, consequentemente são levadas por todo vento de doutrina, por homens que induzem ao erro, como afirma Paulo.

Mas não apenas isto. São pessoas que não têm um posicionamento doutrinário – vivem no ré-té-té da vida religiosa; para elas a vida cristã não passa de divertimento religioso, de brincar com a fé como crianças que brincam com seus joguinhos. Divertem-se nos cultos da igreja ao som da nova música; das mensagens de autoajuda, das pregações vitoriosas e da promessa de possuir mais e mais a cada dia.

Os que estão em cima do muro ou sentados na soleira da janela vivem na fé rasa, sem profundidade bíblica; desconhecem os fundamentos da fé e criam sua própria exegese ou interpretação da Bíblia. Consequentemente estão expostas à iminente queda. E as igrejas estão cheias dessas pessoas. Quando alguém prega uma mensagem bíblica é tido como arcaico, ultrapassado, porque as mensagens de hoje apelam às emoções, não ao intelecto e a fé. Se um pregador se apega ao texto e usa um português correto não é compreendido pelos que se assentam na janela.

E às vezes parece que a maior parte do auditório está sentada sobre o muro, e, do alto da posição privilegiada olham à direita e à esquerda, observando o mundo e a igreja. Num momento são fieis ouvindo a Paulo pregar; no outro estão no mundo, despencando janela abaixo, morrendo. Sim, porque os que se assentam sobre o muro não apenas caem; morrem mais facilmente na fé.

Em cima do muro estão pregadores famosos que não se posicionam e, como barcos à deriva vogam no balanço do mundo. Êutico se multiplicou; são milhões agora que subiram para o muro e abandonaram a ortodoxia da fé; abraçaram as novidades do neopentecostalismo. Até as igrejas outrora bíblicas hoje aderiram aos projetos modernos; porque de cima do muro tudo parece mais fácil.

Fé se tornou sinônimo de aquisições; evangélico, sinônimo de status social; cantor gospel, fama e dinheiro. Os pregadores bíblicos contam as moedinhas; os que pregam para os que vivem sobre o muro se deleitam com o beneplácito da boa renda e da fartura.

Hoje, pelo que se vê é preferível sentar-se sobre o muro a ficar no centro onde se ouve e se analisa a Palavra de Deus. O mundo é mais bem visto do alto do muro; mas a fé é vivida no centro da Palavra de Deus.