Que volte o azorrague!

Que volte o azorrague!

2 de dezembro de 2008 7 Por Pr. João de Souza

O azorrague não passa de um chicote de cordas que Jesus trançou para com ele expulsar os cambistas do pórtico do templo. Fiquei meditando neste texto de João: (Jo 2.15) – “… tendo feito um azorrague de cordas, expulsou todos do templo”.

Jesus se deu o trabalho de trançar um açoite! Por que Jesus os expulsou dali? Por que eles inflacionavam a fé! Isso mesmo! Aproveitavam-se da necessidade dos judeus de oferecer sacrifícios e aumentavam o valor dos produtos.

Pela lei de Moisés era permitido aos judeus comprar e vender na área do templo. “Mas, se o local for longe demais e vocês tiverem sido abençoados pelo SENHOR, o seu Deus, e não puderem carregar o dízimo, pois o local escolhido pelo SENHOR para ali pôr o seu Nome é longe demais, troquem o dízimo por prata, e levem a prata ao local que o SENHOR, o seu Deus, tiver escolhido. Com prata comprem o que quiserem: bois, ovelhas, vinho ou outra bebida fermentada, ou qualquer outra coisa que desejarem. Então juntamente com suas famílias comam e alegrem-se ali, na presença do SENHOR, o seu Deus” (Dt 14.24-26).

O que Jesus confrontou, portanto, não era a venda de animais, mas os cambistas, ou mercadores que inflacionavam o preço dos produtos a serviço da fé! Um judeu lá da cidade de Dã, no norte do país, vendia suas ovelhas e o cereal, porque o caminho era demasiadamente longo, e esperava comprar os mesmos produtos pelo mesmo preço em Jerusalém, mas não podia oferecer o que a Deus pertencia, porque os cambistas aumentavam o preço dos produtos! Alguém que chegava de Roma, de Atenas, do Egito ou da Síria para ofertar ao Senhor tinha que se submeter ao exorbitante preço exigido no comércio local. E Jesus percebeu que os que estavam ali negociando haviam perdido o respeito à fé; queriam apenas enriquecer!

Muitos usam esse texto para impedir que produtos quaisquer sejam vendidos no templo – suas igrejas -, mas não é disso que trata o texto! Claro que cabe uma parte aqui aos novos vendilhões de templos, aos que também inflacionam o preço de seus livros, cds, vídeos e DVD’s. Houve um tempo em que os livros evangélicos eram os mais baratos no comércio, em que os “discos” podiam ser comprados, porque os preços eram baixos quando comparados aos dos cantores mundanos, mas hoje os livros das editoras seculares estão incrivelmente mais baratos que os evangélicos! No entanto, não é disso que quero tratar agora.

Cambistas da fé

Hoje os vendilhões ou cambistas da fé vendem ministérios! Li na revista Eclésia que uma pregadora chegou a manter dois escritórios, um no Rio e outro em São Paulo para agendar seus compromissos e a cifra de produtos que vendia era astronômica! Ouvi de outro pregador famoso que teria afirmado, que nem completara trinta anos de idade e estava rico, para o resto da vida! Agenda lotada. Uma equipe ao seu lado e uma mídia cristã para o promover!

E outro dia descobri, que para continuar no ministério que Deus me deu, eu teria que utilizar os agenciadores! E me foi apresentada uma lista de mídia cristã que poderia me colocar cada dia da semana em qualquer lugar do país! Veja bem! Agenciadores de dons ministeriais. Pensei que a pessoa brincava comigo, até que me mostrou um anúncio numa revista evangélica de circulação nacional, de alguém se oferecendo como agenciador entre pregadores e igrejas! Um intermediário, que ganha para agenciar seus compromissos! Ele estabelece as condições, o preço, etc. e leva sua parte! Achei ridículo. Ele não!

Mas aí meu interlocutor começou a me mostrar que a maioria dos cantores evangélicos e alguns renomados pregadores, mantêm agentes que “acertam” com a igreja, ou com a empresa promotora de eventos – isso mesmo, hoje a maioria das conferências é feita por promotores de eventos, empresas especializadas em conferências, congressos e shows – sua participação algures no país! E foi citando nomes de gente famosa, e o que cobram por uma noite de pregação!

Assim, o comércio de animais do antigo templo de Jerusalém virou comércio de dons. O preço varia de acordo com o dom que Deus lhe deu. Sua igreja precisa de avivamento de cura divina? O fulano é “usado por Deus” em cura, e tem um preço! Você quer um bom evangelista? Se ele também orar pelos enfermos o preço é um pouco mais alto. E as exigências de hospedagens aumentam! Claro, nunca incluem a cerveja e o uísque no frigobar, porque estes o Hotel repõem automaticamente! Privacidade total durante o dia (para ficar vendo tevê?), e transporte de luxo que o deixe no local da conferência na hora da pregação.

Você tem o dom de profeta? O preço é outro, porque afinal, você irá gastar tempo impondo as mãos sobre as pessoas, falando do futuro delas, anunciando coisas boas e ruins… E existe um preço para esse ministério! Claro que no passado o preço de um profeta era outro! Levava uma surra, era jogado no fundo de um poço, andava desnudo, não tinha onde dormir. Mas os tempos mudaram! Hoje os profetas modernos, profetizam sonhos! São arautos da prosperidade! Encontrei um desses num vôo pelo Brasil que me afirmou que não aceita passagens em vôos da GOL e da BRA! Vivem bem. Por isso o preço é mais caro! E o agenciador sabe disso. E o pastor também.

E as pessoas que me ligam, logo perguntam: “Pastor quanto você cobra para vir até aqui?”. Quando lhes digo que nada cobro – que preciso apenas de uma oferta de amor para meu sustento e de minha família – entendem que não sirvo para o que têm em mente; que não vou fazer muito sucesso! Porque hoje os cambistas não são apenas os agenciadores de dons; são também os pastores de igrejas que precisam de alguém que lhes cobre bem caro, para que possam cobrar mais de seus membros e dos que vêm à conferência! Assim, conseguem dividir os recursos entre seus projetos e o preletor! Haja azorrague, Senhor!

E quando digo que nada cobro, também nada recebo! Às vezes me endivido pagando as passagens ou o combustível com o cartão, imaginando que serei ressarcido! E, então me dou conta de que os vendilhões do templo não são apenas os agenciadores; nem os camelôs de produtos evangélicos. Não, hoje os vendilhões armaram suas vendas dentro dos templos! São pastores comerciantes de dons! Você tem dons de Deus? Você motiva a igreja? Você atrai multidões? Então aproveite! Porque o azorrague está quase pronto! E que dizer dos agenciadores que agem de má fé, cobrando taxas exorbitantes dos congressistas, e compensando o pregador ou o cantor com uma oferta irrelevante?

Terei que me corromper?

Por que a igreja chegou a esse nível? Será que para continuar abençoando meus irmãos com os dons que Deus me deu terei que me corromper? Terei que me corromper vendendo bem caro meus livros para compensar o déficit, já que as igrejas não sabem ofertar? Ou serei obrigado a exigir uma certa quantia, porque as igrejas que me convidam não têm idéia do que seja “oferta de amor”, confundindo-a com esmola? Pois quero lhe dizer que muitos homens de Deus já se corromperam!

Tenho em mente, neste momento, o último pregador que veio, como profeta de Deus, à nossa cidade. Foi ele que se ofereceu para vir. Avisou-nos que tinha uma mensagem de Deus para nossa cidade! Foi aqui que, anos atrás Deus falou com ele, etc. e tal. Todos dissemos: – bem-vindo em nosso meio! Até que nos deparamos com a exigência de seus coordenadores. Para nós era impossível conseguir trinta mil reais para uma noite de conferência! Oito mil dólares – livres – mais as despesas de hospedagem no melhor hotel da cidade para ele e sua equipe, alimentação, aluguel de som e de ginásio! Era muito dinheiro!

Mas ele não é apenas um profeta: é um especialista em levantar ofertas! Veio, levantou uma grande oferta que deve ter coberto o dobro das despesas, tomou seu avião particular e regressou ao seu país! Os pastores? Eles gostam disso, porque movimenta o povo! O povo? O povo gosta de novidades e paga por elas!

Os novos cambistas não vendem animais, vendem dons! Quer dizer, são como qualquer comerciante, vendem seus serviços. A bem da verdade, a palavra ministério, no grego é serviço, exceção feita ao texto de 1 Coríntios 4.1. Mesmo assim a NVI fez bem em traduzi-la como “servos” porque este é o sentido de huperetes, um auxiliar de remador!

Assim, os novos cambistas da fé oferecem seus dons a preços e condições razoáveis! E como uma boa parte dos “sacerdotes” aderiu ao câmbio, estes não vêem problema algum em participar do comércio. Sim. Comércio da fé. Comércio de dons!

Às vezes tenho a impressão de ver Jesus tecendo seu azorrague, seu açoite de cordas. Está quase pronto! Prepare-se, porque ele voltará a exclamar: “Parem de fazer da casa de meu Pai um mercado!”. “Tirem esses homens daqui!”.

“Portanto, visto que temos este ministério pela misericórdia que nos foi dada, não desanimamos. Antes, renunciamos aos procedimentos secretos e vergonhosos; não usamos de engano, nem torcemos a palavra de Deus. Ao contrário, mediante a clara exposição da verdade, recomendamo-nos à consciência de todos, diante de Deus” (2 Co 4.1-2). À Luz do que expus, que texto ridículo! Não para os que mantêm boa consciência diante de Deus!

Que volte o azorrague

Devo confessar que estou indeciso! Até pensei em “expor” o meu ministério numa dessas feiras de produtos cristãos que acontecem pelo Brasil; de “me” anunciar na mídia nacional comprando meia página da revista mais lida; de contratar agências para me levarem para o exterior. Mas, recuo diante do que meus olhos vêem. Vejo o Senhor preparando um açoite de cordas! E não é para expulsar os camelôs que vendem produtos evangélicos junto aos nossos templos e casas de oração. Essa gente sincera faz isso pra poder sobreviver! O azorrague não é para eles! É para os comerciantes dos dons. Afinal, ele os deu gratuitamente, e os homens os utilizam para se enriquecerem à custa da fé!

Corruptores e corruptos. Preparem os lombos! O azorrague está quase pronto! A casa de Deus será purificada! Vai ser aquela correria!