Deus e as cidades – Forças que lutam pelo controle das cidades

As cidades sempre foram o campo de batalha entre as forças do bem e do mal. Por que isto acontece? Porque quem domina a cidade, domina o povo.

Percebe-se nas escrituras a existência de dois modelos de cidades que são representações ou figuras para outras cidades: Babilônia e Jerusalém. A primeira é sempre vista sob a ótica do mal e a segunda como a cidade da habitação divina, ou cidade da paz. Babilônia é vista nas escrituras como a cidade dominada por Satanás. Ela aparece pela primeira vez em Babel – na confusão de línguas – e anos depois em Apocalipse 16 a 18 onde é apresentada como a síntese do mal, “a grande Babilônia, a mãe das prostituições e abominações da terra” (Ap 17.5). Babilônia é a figura da cidade voltada para si mesma com um sistema social perverso, desumano; cidade que mantém uma política de opressão e exploração dos pobres, ao mesmo tempo que seus governantes vivendo na opulência e no luxo. De Babilônia diz o profeta: “Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranqüilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado. Foram arrogantes” (Ez 16.49).

Jerusalém, em contraste é apresentada como a forma ideal de cidade de Deus, aparecendo pela primeira vez em Gênesis 14.17-24 como Salém e por último em Apocalipse na visão da cidade santa, “a nova Jerusalém que desce do céu” (Ap 21.2). Esperava-se de Jerusalém, por ser a figura de uma cidade governada por Deus que mantivesse um sistema social que testemunhasse da paz de Deus, numa economia justa, com a distribuição de riqueza e uma política social justa. Sob o Senhorio de Deus deveria ser a luz e o testemunho divino para as nações, no entanto, no decorrer dos séculos assimilou a espiritualidade babilônica – em que Baal é deus e não Javé.

Bem antes de se tornar Jerusalém ela era Salém (Gn 14.18), uma pequena cidade onde Melquisedeque era o sacerdote-rei.  Ao que parece o nome Jerusalém só foi dado à cidade depois da conquista de Davi em 2 Sm 5.6-12. Documentos antigos atestam que era conhecida como Urushalem ou Shalem nome dado em homenagem ao deus cananita simbolizado pela estrela Vênus. Shalem quer dizer completude (isto é, que tem tudo, paz, harmonia, riqueza), e no decorrer dos anos se tornou Shalom – paz.1 Urushalem que significa “fundação de Salém” 2 se tornou Jerusalém, ganhando agora o prefixo- Je. É a tradução da palavra hebraica YAH, na realidade uma abreviação da palavra Yahweh. Davi, ao conquistar a cidade acrescentou o nome do seu Deus à cidade, no português com o prefixo “Je”. Por isso, Jerusalém quer dizer a cidade de Deus, diferentemente de Urushalem que representava a cidade de Baal.

Isto quer dizer que uma mesma cidade pode conter dentro de seus muros duas forças que se opõem, Deus e Baal.

Pode-se afirmar que Jerusalém e todas as cidades são o campo de batalha entre Deus e Satanás pelo domínio do povo e de suas estruturas. Uma mesma cidade pode ter o espírito da Babilônia e mudar para Jerusalém, ou ser Jerusalém e mudar para Babilônia. Como o pêndulo de um relógio, os governantes mudam a espiritualidade da cidade que haverá de influenciar a vida social do povo.

Estas duas cidades representam os dois tipos de domínios existentes na terra: o domínio de Baal através da política, economia e religião e o domínio de Deus, tão-bem expresso na oração que Jesus ensinou seus discípulos: “Venha o teu reino”. É dentro desta ótica de duas forças que lutam pelo controle das cidades que a igreja precisa discernir o foco central da batalha espiritual.

Javé, no AT é visto como o Deus da aliança e da responsabilidade; Baal era visto no Oriente como o deus do deboche e da licenciosidade. Os seguidores de cada entidade  viviam se confrontando entre quem era o mais poderoso, Javé ou Baal. Visto por esta ótica toda cidade é uma cidade de conflito entre o que é Javé e o que é Baal. É o conflito entre as forças da liberdade e as forças da permissividade; entre a justiça e a exploração; entre as forças do amor e do ódio, entre as forças de Deus e as de Satanás.

Governos espirituais sobre as cidades

A questão dos governos espirituais que influenciam os governos de uma cidade está bem claras nas Escrituras. Depreende-se da abordagem bíblica que Deus criou os governos – traduzidos na Bíblia como potestades, principados e governos – reinos espirituais que influenciam as decisões na terra. Paulo afirma que todos os governos foram criados por Jesus: “Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.14-16).

Então é possível que tenha havido, de fato, uma rebelião quando estas potestades se rebelaram contra a autoridade do Senhor.

A versão Septuaginta do antigo testamento traduz o texto de Deuteronômio 32.8 da seguinte maneira: “Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quando separava os filhos dos homens uns dos outros, fixou os termos dos povos conforme o número dos anjos de Deus”.

F.F. Bruce afirma que o texto da Septuaginta representa a versão original: “Este texto bíblico pressupõe que a administração de várias nações foi distribuída entre um determinado número de anjos… Em alguns lugares certos poderes angelicais são apresentados como principados e potestades hostis, os ‘dominadores deste mundo’ de trevas descritos em Efésios 6.12”.

O comentarista Albert Barnes (Barne’s Notes) Baker Book House, Vol. II p. 335) complementa a idéia de que os judeus criam na existência de setenta nações e que a cada uma delas foi concedido um anjo guardião.

Robert Lithicum afirma: “Da mesma forma que o trino Deus criou a humanidade e dotou-a com a capacidade de criar a cidade, também criou os sistemas e estruturas que trazem ordem a cada uma delas, assim também criou os principados e potestades que trazem “espírito” aos sistemas e à cidade”. 1

Estes comentaristas defendem que, de fato, na rebelião algumas regiões foram capturadas por Satanás e usadas para levar adiante o projeto do diabo. Daí que é preciso se fortalecer, não na carne, mas no espírito, para lutar contra “as astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Ef 6.10-12).

Entendendo os domínios na ótica do livro de Daniel

É possível entender a questão dos domínios territoriais atentando para a experiência de Daniel. Este servo de Deus, depois de três semanas de intensa intercessão recebe a resposta às suas inquietações através de um varão celestial que o conforta, dizendo: “… porque desde o primeiro dia, em que aplicaste o coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, foram ouvidas as tuas palavras; e por causa das tuas palavras é que eu vim” (Dn 10.12). O versículo seguinte traz uma das maiores revelações bíblicas de todos os tempos: “Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu por vinte e um dias; porém Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu obtive vitória sobre os reis da Pérsia”.

A lei da dupla referência

Como entender o texto? Alguns acontecimentos registrados na Bíblia só podem ser entendidos mediante a “lei da dupla referência”. Ora, o governo da época era o de Ciro, rei da Pérsia, mas no mundo espiritual havia um príncipe que influenciava o governo Persa. O versículo 20 esclarece o episódio, pois diz: “Sabes por que eu vim a ti? Eu tornarei a pelejar contra o príncipe dos persas; e, saindo eu, eis que virá o príncipe da Grécia”. Percebe-se que houve uma batalha nos céus com os demônios liderados por Satanás tentando impedir a passagem do Arcanjo.  E no mundo natural e espiritual foi o que aconteceu: a Grécia, a seguir, ocupou o lugar de destaque no mundo político da época.

De acordo com a Bíblia Anotada de Dake “esta lei ocorre sempre que uma pessoa viva e conhecida é mencionada, e quando há menção de fatos indicando que um ser invisível a utiliza como uma ferramenta para levar adiante os seus propósitos”.

A Bíblia anotada de Ryrie diz na nota de rodapé: “Um ser sobrenatural que tentava levar os reis da Pérsia a se oporem ao plano de Deus. Os anjos maus procuram influenciar os relacionamentos entre as nações… Com a ajuda de Miguel, o anjo bom obteve um lugar de superioridade para influenciar os destinos da Pérsia. No entanto, a batalha entre anjos bons e maus pelo controle das nações continua, conforme o versículo 20”.

Há, por exemplo, duas passagens nas Escrituras que se referem a um governador de um país e também a Satanás. São as referências de Ezequiel 28.11-19 que menciona o rei de Tiro, mas cuja figura central é o próprio Satanás e Isaías 14.3-27 que se refere ao rei de Babilônia. Parecem ser pessoas da terra, mas na realidade os textos se referem a seres espirituais, pois descreve alguém cujos atributos transcendem a vida de uma pessoa.

Boa parte dos teólogos consultados concorda que cada unidade da sociedade é guardada e dirigida por seu anjo protetor, como é o caso de Jerusalém: O anjo do Senhor saiu em defesa da cidade na invasão de Senaqueribe. “Então, naquela mesma noite, saiu o Anjo do Senhor (da cidade) e feriu, no arraial dos assírios, cento e oitenta e cinco mil; e, quando se levantaram os restantes pela manhã, eis que todos estes eram cadáveres” (2 Rs 19.35). Que havia um anjo conduzindo o povo é visto em Juízes quando diz: “Subiu o anjo do Senhor de Gilgal a Boquim e disse…” (Jz 2.1).

Robert Lithicum pergunta: Por que motivo Satanás direciona sua ofensiva contra os sistemas e estruturas da cidade?

Primeiro, porque os governantes que se apresentam como líderes básicos dos sistemas estão no ponto, e maduros para a sedução. Segundo, porque a igreja é terrivelmente ignorante acerca dessa estratégia. E quando os cristãos entram na área política ou econômica são ingênuos e se deixam obcecar pelo poder. 2 Os líderes colocados pelo povo são imediatamente seduzidos pelo poder, dinheiro e fama e inconscientemente trabalham no princípio de Satanás e não no princípio do governo de Deus.

Exemplo de sedução maligna ocorreu com Salomão que rapidamente esqueceu dos mandamentos divinos criando uma classe social que não estava nos projetos de Deus. Salomão fez de Jerusalém uma cidade de Deus, e, ao terminar seu governo a havia entregue aos cuidados de Baal. Havia leis específicas que Deus deixou para que os reis cumprissem, e uma delas é de que o rei não deveria se ocupar da criação de cavalos, o mesmo que ser colecionador de carros antigos nos dias de hoje, paixão exercida por grandes líderes denominacionais. Salomão foi o maior criador e comerciante de cavalos daquela época (Ver Dt 17.14-20; 1 Sm 8.11-18 c/ 1 Reis 10.26-29). Salomão não apenas utilizou o trabalho escravo dos estrangeiros; ele também escravizou os pobres de Israel para construir seus palácios. Considere também a provisão diária apenas para os palácios de Salomão.

“Os mantimentos que Salomão precisava todos os dias eram: três mil quilos de farinha de trigo e seis mil quilos de farinha de outros cereais; dez bois gordos, vinte bois de pasto e cem carneiros; fora veados, gazelas, corços e aves domésticas “ (1 Reis 4.22-23).

Estruturas iníquas da sociedade

Ainda que um administrador conheça estas questões, por certo enfrentará na administração de um governo problemas maiores que estão na raiz da sociedade. É possível, então, que o administrador fiel sem se aperceber saia dos limites geográficos estabelecidos por Deus e pise no território geográfico administrado por Baal.

As estruturas governamentais de nossas cidades são iníquas e precisam ser mudadas.

Deus estabeleceu para o povo de Israel leis sociais, políticas e agrárias e este conjunto de leis encontrados nas Escrituras mostram o quanto Deus se preocupava com os menos aquinhoados da sociedade. Assim, ao estabelecer a alforria dos escravos, o descanso da terra e o perdão das dívidas a cada sete anos, as leis divinas freavam o enriquecimento desigual e minoravam o sofrimento dos pobres. Deus deixou em Israel uma política de justiça jamais superada por qualquer sistema político engendrado por homens. Platão em sua obra a República, Tomas More, o humanista perseguidor dos cristãos, com sua cidade utópica em Utopia, e Karl Marx em seu manifesto comunista sonharam com uma sociedade perfeita, que nunca será alcançada por pessoas imperfeitas.

Os apóstolos tiveram esta percepção do mundo espiritual, quando afirmaram que entenderam que o mundo jaz no maligno (1 Jo 5.19; 1 Jo 4.5-6; Jo 15.19). Por isso, desde o início da igreja a mensagem ouvida foi: “Salvai-vos desta geração perversa” (At 2.40). Na mensagem de Paulo existe o apelo constante de não nos conformarmos com o sistema desta geração (Rm 12.1). As estruturas políticas, jurídicas e sociais da nação brasileira são iníquas e perversas e precisam ser mudadas. Compete à igreja transformar a sociedade fazendo de cada cidade, uma cidade de Deus.

Confrontando os demônios de uma cidade

A igreja vive intensamente esta tensão porque habita ao mesmo tempo Jerusalém e Babilônia, e dentro dessas cidades iníquas cresce e lança as sementes do reino de Deus. A igreja traz o governo de Deus às cidades através da evangelização, da intercessão, da oração, da pregação da palavra de Deus com sinais e maravilhas, vivendo um estilo de vida santo. Cada pessoa que se converte a Cristo fica livre do domínio de Satanás, e passa a viver sob o governo de Deus. Experiências de várias cidades do mundo indicam que esta é uma verdade possível, desde que haja entendimento espiritual e unidade entre os líderes para que Deus comece a agir.

A igreja tem a tarefa de expulsar os demônios de uma cidade libertando os seus habitantes, e isto se dá através de duas armas espirituais, a proclamação do evangelho de Jesus Cristo e a confrontação com as autoridades espirituais na oração e no Nome de Jesus.

Os discípulos quando regressaram de sua missão estavam empolgados com os acontecimentos, especialmente com a manifestação de demônios: “Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome!”, pelo que Jesus acrescenta: “Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpiões e sobre todo poder do inimigo, e nada, absolutamente, vos causará dano” (Lc 10.17,19).

É na evangelização que a igreja direciona as forças divinas contra os poderes do mal confrontando os demônios que dominam as cidades. Quando Filipe iniciou seu ministério em Samaria “as multidões atendiam, unânimes, às coisas que Filipe dizia, ouvindo-as e vendo os sinais que ele operava. Pois os espíritos imundos de muitos possessos saíam gritando em alta voz; e muitos paralíticos e coxos foram curados” (At 8.6-7). Qual o resultado? A alegria de Deus inundou aquela região (v 8). Além de que o Senhor Jesus concedeu à igreja dons de serviços que operam limpando e restaurando uma cidade. Os dons de Romanos 12, 1 Coríntios 12 e Efésios 4.11 cooperam entre si para que o projeto de Deus seja instalado imediatamente, desde que o evangelho seja proclamado.

1 Shalom para o judeu também traz a idéia de completude. Quando alguém deseja paz, deseja saúde, prosperidade e felicidade total.

2 Shalem era um deus cananita simbolizado por Vênus e ao lado de Ashtar e Moloque eram deuses que representavam também a Baal.

1 LINTHICUM, Robert C. Cidade de Deus, Cidade de Satanás, Missão Editora, p 80

2 Ibid p 91

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Pastor, escritor, historiador e pesquisador bíblico

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One Comment on “Deus e as cidades – Forças que lutam pelo controle das cidades”

  1. Boa tarde pastor João de Souza.
    Confesso que tenho me deliciado com seu site, passando horas estudando a palavra de Deus, e usando-o com fonte para sermões.
    Gostaria, se possível, que o senhor desse seu parecer sobre o livro Este mundo tenebro de Frank Peretti, editora Vida.

    que a graça e a paz, de nosso senhor Jesus Cristo, seja sempre com você.

    grato,

    Daniel B. Lima

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