Os quatro cânticos do evangelho de Lucas

Lucas 1.46-55. O cântico de Maria.

I. O cântico de exultação.

Quando Maria ficou sabendo que sua tia Izabel, depois de velha, havia concebido, dirigiu-se até a casa dela, e, certamente no caminho refletiu sobre o que Deus estava fazendo e preparando seu cântico de exultação. “E Isabel, tua parenta, igualmente concebeu um filho na sua velhice, sendo este já o sexto mês para aquela que diziam ser estéril. Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas” (Lc 1.36).

A) Maria fala de alma (psique) e de espírito (pneuma).

“A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador” (Lc 1.46-47). Tais palavras indicam que todo o seu ser jubilou e exultou em Deus. Como Davi que dizia: “Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome” (Sl 103.1).

Mathew Henry afirma que o Dr. Lightfoot conjectura que Maria conceberia o Salvador em Hebron, e, certamente, intimada pelo anjo apressou-se em visitar Isabel. Provavelmente seria em Siló, da tribo de Judá, a semente de Davi, e bebê seria concebido numa cidade de Judá e de Davi, já que o menino teria que nascer em Belém. Foi em Hebrom que Isaque recebeu a promessa; ali foi instituída a circuncisão, e ali Abraão comprou seu primeiro pedaço de terra; a mesma cidade onde Davi foi coroado Rei (Mathew Henry´s Commentary).

B) Compare algumas frases do cântico de Maria com o de Ana:

Maria: “A minha alma engrandece ao Senhor”.

Ana: “O meu coração se regozija no Senhor”.

Maria: “Porque contemplou na humildade da sua serva”

Ana: “Levanta o pobre do pó e, desde o monturo, exalta o necessitado”.

Maria: “Derrubou do seu trono os poderosos e exaltou os humildes”.

Ambas as mulheres que viviam na pobreza experimentaram a magnificência do poder de Deus!

C) A exultação no crente ocorre quando ele medita sobre o que Deus fez no passado, faz no presente e fará no futuro! Maria traz à mente as fieis promessas de Deus aos pais no passado.

1. Maria exultou porque se lembrou das promessas de Deus feitas no passado.

As grandes orações da Bíblia fazem este retrospecto histórico. Josafá reivindicou a vitória falando da promessa feita a Abraão, amigo de Deus (2 Cr 20.7). Neemias traz à lembrança os patriarcas e especialmente a Abraão (Ne 9.7). Pedro cita Abraão ao falar da nova aliança em Cristo (At 3.25-26).

2. A exultação no crente ocorre quando numa fração de segundos ele se apercebe da grandeza e da misericórdia de Deus.

2.1. Davi afirmou que “Os que habitam nos confins da terra temem os teus sinais; os que vêm do Oriente e do Ocidente, tu os fazes exultar de júbilo” (Sl 65.8). E Davi se alegrava porque via o futuro glorioso da terra de Israel: “Porque a respeito dele diz Davi: Diante de mim via sempre o Senhor, porque está à minha direita, para que eu não seja abalado. Por isso, se alegrou o meu coração, e a minha língua exultou; além disto, também a minha própria carne repousará em esperança” (At 25-26).

2.2. Jeremias afirma que as nações “Hão de vir e exultar na altura de Sião, radiantes de alegria por causa dos bens do SENHOR, do cereal, do vinho, do azeite, dos cordeiros e dos bezerros; a sua alma será como um jardim regado, e nunca mais desfalecerão” (Jr 31.12).

2.3. A população de Susã fez festa nas ruas quando Deus libertou o seu povo.  “Então, Mordecai saiu da presença do rei com veste real azul-celeste e branco, como também com grande coroa de ouro e manto de linho fino e púrpura; e a cidade de Susã exultou e se alegrou” (Et 8.15). Festa, fogos de artifício, música, samba, alegria!

2.4. Jesus teve seu momento de alegria e de exultação quando os setenta voltaram de sua missão, felizes pelos milagres que aconteceram: “Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Lc 10.21).

A época do Natal deveria irromper no crente cânticos de alegria e de exultação pela vinda do Filho de Deus para redimir a humanidade.

Lucas 1.67-79: O Cântico de Zacarias.

II. Zacarias. O cântico da esperança.

A) A esperança de ter um filho; e a esperança da missão de seu filho sobre a terra.

Não apenas a esperança de receber o que esperara tantos anos, mas a visão do que seu filho fará no futuro.

1. O cântico gerado num momento de dúvida. Uma pequena dúvida pode gerar nove meses de mudez.

E foi durante este tempo que Zacarias refletiu a experiência que tivera no santuário (Lc 1.6-23).

2. Uma represa contida durante nove meses rompe em alegria diante de Deus (Lc 1.57-66).

Logo que terminou sua mudez, “desimpedida a língua, falava louvando a Deus” (Lc 1.64). A celebração do Natal ou nascimento de Cristo começou com o cântico de Maria e teve sua continuidade com os louvores de Zacarias.

Algumas orientações quanto a certas palavras que o ajudarão a entender o sentido da poesia de Zacarias:

V. 68: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel…”. Daí vem o nome “benedictus” dada ao cântico de Zacarias. “Porque visitou”. A palavra visitar aqui não é a mesma de que fala Maria no v 48. “Redimiu o seu povo”. Redimir tem o sentido de resgatar; de pagar um preço (Veja Tito 2.14).

V. 69: “e nos suscitou plena e poderosa salvação na casa de Davi, seu servo”. “chifre de salvação”, é o hebraísmo utilizado. Veja Sl 132.17; 1 Sm 2.1,10; Ez 29.21 em que no original a palavra poder, força ou similar é “chifre”.

V. 70: “…como prometera, desde a antiguidade…”. Aqui o sentido é desde o começo do mundo.

V. 73: “E do juramento que fez…”. Tudo o que Deus fez a Israel e faz ao seu povo hoje tem por fundamento seu juramento feito aos patriarcas. Veja Gn 12.3; 17.4; 22.16,17.

Em Deuteronômio Deus afirma que suas benesses para com Israel não era pela qualidade e quantidade do povo, mas devido ao juramento que fizera a Abraão:

“Não é por causa da tua justiça, nem pela retitude do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela maldade destas nações o SENHOR, teu Deus, as lança de diante de ti; e para confirmar a palavra que o SENHOR, teu Deus, jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó” (Dt 9.5).

V. 78: “graças à entranhável misericórdia de nosso Deus”. A palavra “entranhável” usada na RA ou “entranhas da misericórdia” usada na Corrigida, tem o sentido de “compaixão abundante, transbordante, sem limites”. É uma figura de linguagem conhecida como antropopatia, em que se atribuem sentimentos a Deus ou ás divindades.

“…pela qual nos visitará o sol nascente das alturas”. O amanhecer. No hebraico a palavra é zemach – ramo, broto, do grego anatolê, porque surge o ramo com brotação, e tem o sentido de renovo, ramo e luz combinados. Veja Jr 23.5; Zc 3.8. Cp. com Ez 16.7; 17.10.

V. 79: “para alumiar os que jazem nas trevas e na sombra da morte”. Aqui tem outro hebraísmo, Zalmaveth – sombra da morte (Jó 10.21; 38.17; Sl 23.4; 107.10; Is 9.2; Mt 4.16, etc.). “Dirigir os nossos pés”, ou calçar os pés. Quando se tem uma experiência com Deus a “sombra da morte” não traz medo do futuro!

B) Todo crente deve entoar os cânticos da esperança.

1. Um cântico que lhe aponte as grandes bênçãos do futuro.

Lucas 1.14

III. O cântico dos anjos revelando as boas intenções de Deus.

A) Cântico que revela o coração de Deus.

“Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre homens, a quem ele quer bem”. Ou “boa vontade para com os homens” (Corrigida).

O cenário aqui é indescritível e difícil de ser entendido pela mente da modernidade, das pessoas que vivem na cidade. Pastores dormem no campo guardando seus rebanhos. A noite é escura e de densas trevas. O anjo desce e lhes dá uma boa-notícia, e logo depois aparece um grande coral de anjos sobre a cabeça dos pastores glorificando a Deus!

Os anjos devem ter entoado uma melodia celestial, no entanto, o que deve ser destacado aqui são duas coisas: A glorificação a Deus, e o sentido da honra dada a Deus: É que ele quer o bem; ele ama incondicionalmente os homens na terra! Paz, irmãos! Deus quer bem a todos vocês!

Os textos dizem “entre os homens de boa-vontade”. A boa vontade é que Deus tem prazer no homem. Como em Lucas 12.32: “porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino.”

B) Cântico que revela o desejo de Deus: Paz!

1. Deus cantou através dos anjos.

O Natal foi tão importante para Deus que ele não se conteve e não pôde ficar calado.

Talvez esteja aí o segredo dos autores dos lindos cânticos de Natal através da história. Conheceram a Deus e viram o que se passou no coração do Pai ao anunciar a vinda de seu filho a terra.

1.1. Como isso é possível? Deus é o autor de vários cânticos na Bíblia e também o Autor dos cânticos que lhe entoamos! Ex. Dt 32. Este é um cântico escrito por Deus.

1.2. Em Apocalipse temos um cântico escrito em parceria com Jesus (Ap 15.2-4).

1.3. O livro de Hebreus fala que Jesus canta no meio da igreja: “A meus irmãos declararei o teu nome, cantar-te-ei louvores no meio da congregação” (Hb 2.12).

2. Se ouvirmos atentamente escutaremos os cânticos de Deus. O hino 299 da HC diz: “Há um novo canto em meu ser, é a voz de meu Jesus, que me chama vem em mim obter, a paz que eu ganhei na cruz. Cristo, Cristo, Cristo, nome sem igual; enches o contrito, de prazer celestial”.

3. Por isso o Natal, seja este celebrado por ímpios ou por crentes fieis; com espírito comercial ou com espírito celestial, exprime o cerne do coração de Deus: A Paz!

4. Os hinos de Deus ainda ressoam pelo Universo. Você pode ouvi-los?

Lucas 2. 28-32: O cântico de Simeão.

IV. O cântico da conquista.

A) O cântico do fim e do começo.

1. Para Simeão era o fim de sua vida; para Jesus o começo de uma nova era.

2. Para Simeão era a concretização de uma promessa de Deus.

Simeão era homem velho, e o Espírito Santo lhe falara que ele não morreria antes de ver o Cristo do Senhor. Naquela manhã o Espírito Santo deve ter-lhe sussurrado aos ouvidos: Vá ao templo. Lá você verá o Messias. Simeão chega no momento em que Jesus, aos quarenta dias de vida (Lv 12.3-4) depois do período de purificação da mulher era apresentado a Deus no templo. Ele toma o menino em seus braços e louva a Deus:

B) Este é o cântico dos que ouvem a voz do Espírito Santo.

1. Apesar de velho, seu espírito estava antenado com as promessas de Deus.

“Revelara-lhe o Espírito Santo que não passaria pela morte antes de ver o Cristo do Senhor” (Lc 2.26).

C) O cântico dos que veem cumprida sua missão.

1. Simeão esperou a vida toda por esse dia. “Movido pelo Espírito, foi ao templo” (Lc 2.27).

1.2. Só os que são dirigidos pelo Espírito de Deus conseguem se antecipar ao que Deus irá fazer.

“Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra; porque os meus olhos já viram a tua salvação, a qual preparaste diante de todos os povos: luz para revelação aos gentios, e para glória do teu povo de Israel.”

Conclusão: Quatro cânticos que indicam quatro etapas de nossas vidas.

1.      O cântico da impossibilidade, entoado por Maria com exultação.

2.      O cântico da esperança, entoado por Zacarias.

3.      O cântico de Deus, entoado pelos anjos.

4.      O cântico da conquista, que se canta no fim da vida.

6 Responses to Os quatro cânticos do evangelho de Lucas

  1. Olá! Amado Pr. João, Graça e Paz…

    Glorifico a Deus pela sua vida e pelo seu ministério, no qual eu tenho me edificado com as suas mensagens, tenho acompanhado o seu excelente trabalho nesta pagina, e também publicado em meu humilde blog, onde pude comprovar que os meus leitores, também amam o seu trabalho, e por isso,queremos parabéniza-lo.
    Tomei a liberdade de colocar o seu Site no meu blog, para que todos os leitores possa acompanha o seu trabalho.
    Minha família e eu, lhe desejamos um feliz Natal, e um próximo ano novo repleto de felicidades.

  2. silvania disse:

    Glória a Deus !
    Eu estava aqui pedindo a Deus uma palavra pra meditar nesta tarde de 12.08.14 às 15:00, Ele me concedeu o Cântico de Ana ……. Ai disse comigo vou estudar esta passagem….
    e encontrei este estudo maravilhoso , que abriu minha visão ( alma ) e senti que meu espírito se alegrou muitíssimo……… Deus continue te Abençoando.

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