Estas cartas encontram-se num manuscrito Siríaco do século VI ou VII, que está no Museu Britânico. O Dr. Tischendorf afirma em seu Apócrifo do Apocalipse (Prolegg. D. 56) que possui uma cópia do mesmo texto em grego de um manuscrito Parisiense, do qual ele diz scriptura satis differt, non item argumentum. As cartas são seguidas por alguns trechos que parecem ter sido adicionados por algum copista, embora sejam seguidos pela assinatura a Pilatos, dos quais Josefo fala como historiador de seu tempo. Temos, portanto, uma opinião favorável à autenticidade deste trecho, porque Pôncio diz que Justo não mencionou Cristo. Por Teodoro, entendemos o Imperador Tibério. A pergunta e a resposta concordam em sentido com o que lemos na “Anáfora”, ou resposta de Pilatos.
Carta de Herodes a Pilatos, o governador
Herodes a Pôncio Pilatos, governador de Jerusalém. Paz.
Estou em grande aflição. Escrevo-te estas coisas para que, quando ficares sabendo se entristeça por mim. Porque, quando minha filha Herodias, que me é muito querida, estava brincando em um lago congelado, o gelo se abriu sob seus pés, e todo o seu corpo afundou, Sua cabeça ficou como que decepada, permanecendo na superfície do gelo. E agora, sua mãe segura sua cabeça no colo, e toda a minha casa está em grande tristeza. Pois eu, quando ouvi falar de Jesus, queria muito conhecê-lo, ficar com ele a sós, ouvir suas palavras pra conferir se eram como as palavras dos filhos dos homens. E é certo que, por causa dos muitos males que eu e outros cometemos contra João Batista, e por ter zombado de Cristo, receberei a recompensa da justiça, porque derramei o sangue de muitos inocentes na terra. Portanto, os ensinamentos de Deus e todos os seres humanos receberão sua recompensa [1].
Mas, já que foste digno de ver aquele Deus-homem, portanto, convém que ores por mim. Meu filho Azbônio também está na agonia da morte.
E eu também estou em aflição e grande provação, porque tenho hidropisia; e estou em grande angústia, porque persegui aquele que introduziu o batismo na água, que foi João. Portanto, meu irmão, os juízos de Deus são justos.
E minha esposa, novamente, por causa de toda a sua dor pela filha, ficou cega do olho esquerdo, porque desejamos cegar o Olho da justiça. Não há paz para os que praticam o mal, diz o Senhor. Pois já grande aflição vem sobre os sacerdotes e sobre os escribas, porque entregaram a ti o Justo. Porque esta é a consumação do mundo: que consentiram que os gentios se tornassem herdeiros. Pois os filhos da luz serão expulsos, porque não guardaram as coisas que foram pregadas acerca do Senhor e de seu Filho. Portanto, cinge os teus lombos e renova-te, receba a justiça, tu e tua esposa, lembrando-te de Jesus noite e dia; e o reino será de vós, gentios, porque nós, o povo escolhido, zombamos do Justo.
Agora, se há lugar para o nosso pedido, ó Pilatos, visto que outrora fomos poderosos, sepulte cuidadosamente a minha família; pois é justo que sejamos sepultados por ti, e não pelos sacerdotes, os quais, depois de um pouco de tempo, como dizem as Escrituras, na vinda de Jesus Cristo, a vingança os alcançará.
Dê adeus à tua esposa.
Envio-te os brincos de minha filha e os meus próprios brincos, para que sejam um memorial da minha morte. Porque os vermes começam a tomar conta de meu corpo, e sim, estou recebendo um julgamento temporal, pois já estou recebendo julgamento, e temo o juízo vindouro. Porque ambos comparecemos perante o Deus vivo; mas o Julgamento, que é temporário, dura pouco tempo, enquanto o juízo eterno é eterno.
Fim da carta de Herodes a Pilatos.
Carta de Pilatos a Herodes o Tetrarca
Saiba e veja que, no dia em que me entregaste Jesus, tive compaixão de mim mesmo e, lavando as minhas mãos, testemunhei minha inocência acerca daquele que ressuscitou dos mortos depois de três dias e que nele cumpriste a tua vontade, porque tu quiseste que eu me associasse contigo na crucifixão. Agora, sei através dos executores e pelos soldados que guardavam o sepulcro que ele ressuscitou dos mortos. E confirmei o que me foi dito de que ele apareceu fisicamente na Galileia do jeito que era e com a mesma voz, com a mesma doutrina, e andando com o mesmo grupo de discípulos, relembrando todas as coisas e pregando com ousadia sua ressurreição e anunciando um reino eterno.
Alegrem-se terra e céu! Procla, minha esposa, crê nas visões que lhe apareceram quando lhe disseste que eu deveria entregar Jesus nas mãos do povo e à maldade dos sacerdotes.
Agora, quando Procla, minha esposa ouviu que Jesus havia ressuscitado e que aparecera na Galileia, ela levou consigo Longino, o centurião, e doze dos seus soldados, os mesmos que vigiavam o sepulcro e foram saudar a face de Cristo, e como um grande espetáculo viram Jesus com seus discípulos.
Enquanto eles estavam ali, maravilhados e olhando para Jesus, este olhou para eles e disse: “Que é isso? Vocês creem em mim?” Procla, sabe que na aliança que Deus deu aos pais está escrito que todo aquele que havia perecido, viveria por meio da minha morte, a qual vocês viram. – E agora vocês veem que eu vivo; aquele a quem vocês crucificaram. E sofri muitas coisas, até que fui sepultado. Mas, agora, vejam aquele que vocês crucificaram está vivo, porque eu rompi as cadeias da morte e quebrei as portas do inferno, e depois regressarei e voltarei outra vez. Ouçam-me e creiam em mima e também no meu Pai, o Deus que está comigo.
Quando minha esposa Procla, minha esposa, e os romanos que com ela estavam ouviram essas coisas, regressaram a Jerusalém e chorando me relataram o que acontecera, pois também eram contra ele, quando tramaram os males que lhe fizeram. De modo que eu também estava deitado na minha cama, em aflição, e vesti uma roupa de luto, e tomei comigo cinquenta romanos e com minha mulher fui para a Galileia.
E enquanto eu caminhava, testemunhei que Herodes fazia essas coisas por meu intermédio, que ele me aconselhava e me constrangia a armar minhas mãos contra ele, a julgar aquele que julga a todos e a açoitar o Justo, Senhor dos justos. E quando nos aproximamos dele, ó Herodes, ouviu-se uma grande voz do céu, e um trovão terrível, e a terra tremeu e exalou um aroma agradável, como nunca se sentiu, nem mesmo no templo de Jerusalém. Ora, enquanto eu estava a caminho, nosso Senhor que conversava com seus discípulos me viu. Mas orei em meu coração, porque sabia que ele era aquele que você entregou em minhas mãos, e que ele era o Criador de todas as coisas. E nós, quando o vimos caímos com o rosto em terra aos seus pés. Então, em alta voz disse: Eu pequei quando lhe julguei de minha tribuna, e agora reconheço que tu és o Senhor Deus; creio em tua humanidade e em tua divindade. Mas, Herodes e os filhos de Israel constrangeram-me a fazer essa maldade. Tenha misericórdia de mim, Senhor! Deus de Israel! Tu a quem julguei contra a verdade. Sei que tu és o Filho de Deus, e eu só olhava tua humanidade e não tua divindade. Herodes e os filhos de Israel constrangeram-me a fazer-lhe mal. Tem misericórdia de mim! Ó Deus de Israel!
Minha esposa em grande agonia, suplicou: Deus de Israel, retribua-me, não de acordo com as obras de Pôncio Pilatos,nem tão pouco pelas más obras do povo de Israel, nem conforme o que pensam os filhos dos sacerdotes, mas lembre-se de meu esposo em tua glória!
Nosso Senhor se achegou e me levantou a mim e minha esposa bem como aos romanos. Olhei pra ele e vi as marcas da cruz. E ele disse: Aquilo que os pais justos do passado queriam receber, e não o receberam – no tempo certo o Senhor do tempo, o Filho do Homem, o Filho do Altíssimo, que é Eterno, ressuscitou dos mortos e está glorificado nas alturas por toda sua criação e firmado para todo o sempre.
- Justino, um dos escritores dos dias de Augusto e Tibério e Gaio, escreveu em seu terceiro discurso: Maria da Galileia que gerou a Cristo que foi crucificado em Jerusalém, não ficou mais com o esposo. E José não a abandonou. José continuou em santidade sem uma esposa, ele e os cinco filhos de sua primeira esposa. E Maria continuou sem esposo.
- Teodoro escreveu a Pilatos, o governador. Quem era o homem contra quem testificaram diante de ti que foi crucificado pelo povo da palestina?
- Teodoro escreveu a Pilatos: Por que não consentiste em cumprir a lei e ordenar. Eles exigiram isso injustamente, como pudeste transgredir o que estava longe da justiça?
Pilatos enviou-lhe uma carta: Porque ele realizou sinais, eu não quis crucificá-lo; e como seus acusadores disseram: Ele se intitula rei, eu o crucifiquei.
- Josefo diz: Agripa, o rei, estava vestido com um manto tecido com prata e viu o espetáculo no teatro de Cesareia. Quando o povo viu que suas vestes brilhavam, disseram-lhe: “Até agora te víamos como um homem; agora, pois, serás exaltado acima de toda natureza mortal”. Ele viu um anjo vindo contra ele que o atacou e o feriu de morte [2].
Final da carta de Pilatos a Herodes.
Carta de Pôncio Pilatos
Que ele escreveu ao imperador romano a respeito do Senhor Jesus
Pôncio Pilatos ao Imperador Tibério César – Saudações:
Ao Senhor Jesus Cristo, a quem eu te revelei de forma apreensiva, sobre o qual te escrevi em minha última carta, sobre o homem que foi lentamente punido pela vontade do povo, ainda que eu não tivesse vontade de fazê-lo. Pra dizer a verdade em nenhuma época se conheceu um homem tão respeitável e firme. Mas o povo fez um esforço tremendo e seus escribas, anciãos e chefes concordaram em crucificar este embaixador da verdade. Seus profetas, mesmo que as Sibilas dissessem o contrário [3]. E quando Jesus foi pendurado no madeiro, sinais maravilhosos aconteceram trazendo juízo aos filósofos que ameaçavam o mundo profetizando ruínas.
Seus discípulos floresceram. Em seu nome se tornaram eficientes [4]. Se eu não temesse a sedição que se levantaria no meio do povo que estava furioso, quem sabe este homem ainda vivesse entre nós […].
Abraços. 5 das calendas de abril.
Extraído do livro The Lost Books of the Bible
[1] Obs. 2 Pedro 2.13. Mateus 2.16. É quase desnecessário dizer que este Herodes não foi o mesmo que causou o massacre das crianças em Belém.
[2] Este resumo de Josefo (Ant. 19,8) está também no resumo de Eusébio (História Eclesiástica 2,10).
[3] N. E. As Sibilas eram profetizas da Grécia Antiga que agiam como oráculos, oferecendo mensagens divinas enigmáticas em locais sagrados e muito atuantes em Roma dentro do Império.
[4] Cf. Flávio Josefo, Ant. XVIII 3,3