Voando nas asas do vento do Espírito (parte 2)

Para poder voar nas asas do vento do Espírito, como afirmei no texto anterior é necessário que o homem de Deus passe por lutas e tribulações, única forma que Deus encontra para tratar com a carne.

Os místicos da igreja entendiam muito bem o que significava experimentar as profundezas de Deus, como visões, alocuções que é o falar em línguas, êxtases e arrebatamentos. Eles escreveram sobre o recolhimento espiritual em que a pessoa se alegra em Deus, sozinha, tendo uma admiração deleitosa que alarga a alma enchendo-a de paz. Escreveram também sobre o silêncio espiritual quando a alma fica atônita, absorta, abismada e maravilhada diante de tanta grandeza. João da Cruz falava das chagas espirituais, do sono da alma e da noite escura da alma, enquanto Teresa de Jesus falava das chagas de amor, em que o sofrimento vem repleto de gozo.
No entanto, os místicos da igreja – dos quais tenho livros e tratados – para experimentar essa transcendentalidade se autoimpunham castigos físicos, machucaduras, submetiam-se à fome e sede com o fim de se autopurificar. Este, no entanto, não é o caminho da perfeição que agrada a Deus, que o homem se fira com cacos e látegos infligindo a si mesmo dores para poder sentir o sofrimento de Cristo. A tarefa da perfeição deve ser obra de Deus no homem, isto é, vem cima ou de fora para dentro e não do desejo do homem.
O caminho da perfeição não é escolha e tarefa humana, mas decisão de Deus a respeito de uma pessoa. Existem obreiros que Deus quebra aos poucos, um tantinho a cada dia levando anos até que um Jacó se torne príncipe. Deus mesmo haverá de preparar o Peniel para deixar no corpo do homem sua marca. Foram necessários anos de servidão e trabalho até que o homem da roça, Jacó se tornasse Israel ou príncipe. Outras pessoas Deus quebra de uma só vez como fez com Saulo, diminuindo-o até que se tornasse um Paulo. O deserto da Arábia fez bem ao coração inquieto de Paulo e o preparou para receber a revelação divina a respeito da igreja.
A fidelidade a Deus e a entrega total a Jesus Cristo constituem-se automaticamente no caminho que inexoravelmente levará o homem a sofrer tribulações. Não há saída para o homem a não ser enfrentar a dureza da tribulação quando sua carne, sua alma e seu espírito são tratados pelo Espírito de Deus. Como vaso que depois de pronto é levado ao fogo para poder ser vaso útil, assim o obreiro de Deus passa pelo fogo da tribulação, não uma, mas muitas vezes ao longo da vida até que se torne como Jesus. Ser como Cristo tem implicações mais fortes do que apenas ser discípulo. Entre a teoria da teologia e o ser perfeito existe um longo caminho a ser percorrido.
Nenhum obreiro precisa buscar a tribulação, porque se Deus decidiu que este obreiro lhe seja vaso de honra, por certo se encarregará de levar sua obra até o fim. Não é necessário se recolher num mosteiro, pois mesmo lá o mundo ainda estará dentro do homem. O próprio Deus tomará a quem ele quer pela mão e o conduzirá pelo deserto ardente e seco, a fim de que aprenda a depender totalmente da provisão de Deus em todas as áreas de sua vida. Seja numa grande cidade, no campo ou num mosteiro.
Mesmo assim, como diziam os místicos, Deus sempre deixa nos melhores santos alguma fraqueza para que aprendam a depender unicamente de Deus e jamais confiem em si mesmos.
Quando Paulo fala em depender da carne, refere-se àquela dependência que o homem tem de seu conhecimento, sabedoria e autoestima elevada com as quais se impõe sobre as pessoas como se fosse muito espiritual; na realidade, expõe assim sua carnalidade.
Veja o caso de Elias. Enquanto dependia de Deus experimentava uma transcendentalidade tal que era transportado pelo Espírito de Deus de um lugar a outro. Não foi isso que falou Obadias a Elias quando o encontrou? Obadias procurava alguma relva verde para dar aos animais e ficou surpreso com a presença de Elias. Ele falou que Acabe fizera jurar os reis de que Elias não estava escondido entre eles. E gora, “poderá ser que, apartando-me eu de ti, o Espírito do SENHOR te leve não sei para onde, e, vindo eu a dar as novas a Acabe, e não te achando ele, me matará” (1 Rs 18.12).
Quando ele parou de depender de Deus e tratou de fugir de Jezabel, Elias mostrou sua fraqueza; a fraqueza de todos nós. Mesmo assim, quando fugia de Jezabel encontrou pão e água preparados pelos anjos no deserto. Agora, precisou enfrentar quarenta dias de caminhada até Orebe em vez de ser transportado pelo Espírito de Deus. Não foi isso que os discípulos dele disseram a Eliseu em Jericó: “pode ser que o Espírito do SENHOR o tenha levado e lançado nalgum dos montes ou nalgum dos vales”? (2 Rs 2.16).
Deus mesmo se encarrega de pegar o homem e metê-lo em tantas tribulações que o homem não precisará se autoflagelar fisicamente; nem buscar tribulações por sua própria conta: Deus faz que o homem entre pelo caminho do deserto onde experimentará todo tipo de sofrimento, mas nunca o deixará sem o pão e água!
Na quietude do deserto Deus lhe falará ao coração e ali terá suas faculdades espirituais aumentadas, para que, ao entrar no Jardim de Deus usufrua das delícias divinas, sem prepotência nem autossuficiência, mas dependente sempre de Deus.

 

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Pastor, escritor, historiador e pesquisador bíblico

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4 Comments on “Voando nas asas do vento do Espírito (parte 2)”

  1. Parabéns Pastor João.
    E quem hoje, está preocupado em viver em Espírito?
    Quem vai ao culto para buscar as coisas de cima?
    É certo que devemos considerar os iniciantes (inclusive os iniciantes de 30 anos de conversão), os fracos na fé, o qual a bíblia nos coloca no compromisso de amparar. Mas o vento que sopra, e este não é do Espírito, tem nos revelado uma enxurrada de interesses materiais e pessoais.
    E a massa, esta sendo levada a procurar por isso: O Deus que resolve meus problemas; O Deus que realiza meus sonhos; O Deus que é só meu, que cuida e olha só para mim; O Deus que abriu o mar, e irá abrir o mar para eu comprar meu carro novo! E assim por diante…
    Essa última, pior de todas, que é a falta de contextualização a qual não entendo lendo as escrituras (do mar que é aberto para a salvação comparado com o mar que se abre para um capricho pessoal).
    Uma vez correu a mania dos pregadores, e dos bons, de abrirem uma parábola, que segundo eles aliás não o era, de figurar um porteiro que assim estava na profissão por 30 anos apenas por ele morar do outro lado da rua.
    Este porteiro era chamado de cômodo, preguiçoso, sem sonhos, sem ambições… Ao invés de lhe ser perguntado se ele era feliz, ou que sua condição poderia ser encarada como uma vitória de vida, dependendo de onde ele teria vindo por exemplo!
    Bem, não entrando em detalhes agora, só gostaria de citar um exemplo apenas: Isaías. O maior profeta do AT, e que andava descalço e quase nu! Mas aconselhava Reis! João Batista, que vivia como indigente no deserto, mas que veio preparar o caminho para o Salvador!
    Lembro de um cliente que tive a alguns anos.
    Um senhor de mais de cinquenta anos, vendia picolé com aqueles carrinhos que aliás se viam com frequência nas ruas. Deu festa de quinze anos para a filha. Casou outra em seguida sem deixar nada a desejar. Amparou sua família até o fim… Comodista ele não!
    E era uma pessoa sorridente, aliás, muito calmo e sereno. Mais até do que muitos pregadores que conheço!
    Perdoe minhas palavras Pastor João. Quem sou eu afinal!
    Creio que o próximo renovo virá sobre a Igreja para tratar este e outros temas.
    O resto do começo eu comento em outro post. hehe
    Abraço Pastor João… Seu texto foi meu devocional de hoje.

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