{"id":2900,"date":"2016-03-19T13:25:57","date_gmt":"2016-03-19T15:25:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pastorjoaodesouza.com.br\/123\/?p=2900"},"modified":"2016-07-29T01:20:00","modified_gmt":"2016-07-29T03:20:00","slug":"profetas-e-montanistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pastorjoaodesouza.com.br\/123\/?p=2900","title":{"rendered":"Profetas e montanistas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Dois grandes movimentos se destacam entre aqueles que se desviaram do curso do cristianismo no segundo s\u00e9culo: O gnosticismo e o montanismo. Os gn\u00f3sticos se concentraram exageradamente na parte intelectual do cristianismo, enquanto os montanistas exageradamente na parte inspiracional da f\u00e9. N\u00e3o trataremos aqui do movimento dos gn\u00f3sticos, que ser\u00e1 visto \u00e0 parte, e nos deteremos na signific\u00e2ncia do montanismo. Diferentemente dos gn\u00f3sticos, a maioria dos montanistas n\u00e3o se apartou dos ensinamentos dos ap\u00f3stolos de Cristo. Para entendermos o movimento prof\u00e9tico \u00e9 preciso rever o papel que os profetas tinham na igreja primitiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No tempo dos ap\u00f3stolos os profetas eram tidos como figuras importantes na vida da igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Nota do tradutor: Fa\u00e7o aqui neste par\u00e1grafo um retrospecto a atua\u00e7\u00e3o dos profetas no livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos mencionado pelo autor \u00e0 p 92 de seu livro):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nos primeiros anos da igreja os profetas s\u00e3o mencionados com frequ\u00eancia na comunidade dos crist\u00e3os. Eram acreditados e reconhecidos quando se levantavam nas reuni\u00f5es, e, inspirados e tomados pelo Esp\u00edrito Santo proferiam palavras cheias de poder. Depois tais manifesta\u00e7\u00f5es foram diminuindo, em parte porque muitas igrejas come\u00e7aram a suspeitar de que nem todos que se diziam profetas eram genu\u00ednos e tamb\u00e9m, em parte, porque o crescimento organizacional da igreja n\u00e3o deixava espa\u00e7o para que os profetas se manifestassem. Na realidade, um terceiro fator surgiu: A diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero dos profetas. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Encontramos um bom n\u00famero deles nos primeiros anos da igreja, e, de fato, tais manifesta\u00e7\u00f5es sobrenaturais n\u00e3o encontram paralelos no cen\u00e1rio dos grandes movimentos religiosos. <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Um desses profetas, \u00c1gabo que vivia em Jerusal\u00e9m, de repente declarou numa reuni\u00e3o da igreja em Antioquia que uma grande fome viria sobre a terra. De fato, sabemos pelo historiador romano Suet\u00f4nio que o reinado do imperador Cl\u00e1udio (41-54) foi marcado por sucessivas estiagens e perda de colheitas, e quanto a situa\u00e7\u00e3o na Palestina, Josefo relata que a regi\u00e3o sofreu com a fome cerca de 46 d.C. e que a rainha m\u00e3e, uma judia do reino de Adiabene, regi\u00e3o que ficava junto ao rio Tigre trouxe gr\u00e3os do Egito e figos de Chipre para aliviar a fome dos judeus na Palestina. Foi neste tempo que os irm\u00e3os da igreja de Antioquia levantaram recursos para seus irm\u00e3os da Judeia em resposta \u00e0s profecias de \u00c1gabo, que Paulo e Barnab\u00e9 levaram para a igreja de Jerusal\u00e9m.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses profetas aparecem no livro de Atos ao lado dos mestres, e as palavras deles eram bem aceitas. Nas cartas de Paulo os profetas s\u00e3o inclu\u00eddos nos minist\u00e9rios divinamente concedidos a igreja e s\u00e3o tidos como importantes, destacados logo depois dos ap\u00f3stolos (1 Co 12.28). Jesus, ao ascender aos c\u00e9us deu esses minist\u00e9rios ao seu povo: \u201cele mesmo concedeu uns para ap\u00f3stolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres\u201d (Ef 4.11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Didaque, logo no come\u00e7o do segundo s\u00e9culo os profetas ainda ocupavam lugar de proemin\u00eancia e honra na igreja, e surgiu, a partir da\u00ed a necessidade de se diferenciar os verdadeiros dos falsos profetas. Os testes para identific\u00e1-los s\u00e3o bem pr\u00e1ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Permita que os profetas distribuam a (eucaristia) a\u00e7\u00f5es de gra\u00e7as como queiram faz\u00ea-lo<\/em>\u201d. <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E continua a recomenda\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>No que diz respeito aos ap\u00f3stolos e profetas, voc\u00eas devem agir da seguinte maneira, conforme estabelecido nas ordenan\u00e7as dos evangelhos. Que cada ap\u00f3stolo que visitar voc\u00eas sejam recebidos como o pr\u00f3prio Senhor; mas n\u00e3o devem permanecer mais que um dia ou, por (necessidade), se ele permanecer tr\u00eas dias ser\u00e1 considerado falso. E ao partir, o ap\u00f3stolo n\u00e3o deve receber nada al\u00e9m de comida at\u00e9 que encontre um abrigo, e, se ele pedir dinheiro, considerem-no um falso profeta<\/em>\u201d. <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece um teste bem simples, mas o assunto \u00e9 mais complicado do que se imagina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Mas, voc\u00eas n\u00e3o devem testar ou julgar qualquer profeta que fala no Esp\u00edrito, porque todos os pecados s\u00e3o perdoados, menos este. Contudo, nem todo o que fala no Esp\u00edrito \u00e9 um profeta, a menos que ande nos caminhos do Senhor. \u00c9 pelo estilo de vida que os verdadeiros ser\u00e3o diferenciados dos falsos. E nenhum profeta que no Esp\u00edrito ordene que seja posta a mesa do Senhor dela deve comer. <\/em><em>Todo profeta comprovado e verdadeiro, que age pelo mist\u00e9rio terreno da Igreja, mas que n\u00e3o ensina a fazer como ele faz n\u00e3o dever\u00e1 ser julgado por voc\u00ea; ele ser\u00e1 julgado por Deus. Assim fizeram tamb\u00e9m os antigos profetas. Se algu\u00e9m disser sob inspira\u00e7\u00e3o: &#8220;D\u00ea-me dinheiro&#8221; ou qualquer outra coisa, n\u00e3o o escutem. Por\u00e9m, se ele pedir para dar a outros necess<\/em><em>itados, ent\u00e3o ningu\u00e9m o julgue<\/em>\u201d <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema parece um tanto confuso, mas a ideia em vista est\u00e1 bastante clara. Uma pessoa que negocia seus dons de profecia n\u00e3o pode ser recebida. No entanto, deve-se ter muito cuidado ao testar os que v\u00eam como profetas, porque duvidar de um verdadeiro profeta \u00e9 pecar contra o Esp\u00edrito Santo atrav\u00e9s do qual ele fala. E se um profeta verdadeiro decide fixar-se numa comunidade crist\u00e3, esta deve ser congratulada. Um irm\u00e3o que viaja deve estar preparado para obter seu sustento atrav\u00e9s de sua profiss\u00e3o enquanto est\u00e1 residindo na cidade da igreja que ele freq\u00fcenta. Por\u00e9m, um profeta merece honra por seu posto e pela virtude de seu minist\u00e9rio prof\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Acolha todo<\/em><em> aquele que vier em nome do Senhor. Depois, examine para conhec\u00ea-lo, pois voc\u00ea tem discernimento para distinguir a esquerda da direita. Se o h\u00f3spede estiver de passagem, d\u00ea-lhe ajuda no que puder. Entretanto, ele n\u00e3o deve permanecer com voc\u00ea mais que dois ou tr\u00eas dias, se necess\u00e1rio. Se quiser se estabelecer e tiver uma profiss\u00e3o, ent\u00e3o que trabalhe para se sustentar. Por\u00e9m, se ele n\u00e3o tiver profiss\u00e3o, proceda de acordo com a prud\u00eancia, para que um crist\u00e3o n\u00e3o viva ociosamente em seu meio. Se ele n\u00e3o aceitar isso, trata-se de um comerciante de Cristo. Tenha cuidado com essa gente!<\/em>\u201d <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cTodo verdadeiro profeta que quiser se fixar em seu meio \u00e9 digno de alimento. <\/em><em>Assim tamb\u00e9m o verdadeiro mestre \u00e9 digno do seu alimento, como qualquer oper\u00e1rio.<\/em><em> Portanto, <\/em><em>tome os primeiros frutos de todos os produtos da vinha e da eira, dos bois e das ovelhas, e os d\u00ea aos profetas, pois s\u00e3o eles os seus sumos-sacerdotes. Por\u00e9m, se voc\u00ea n\u00e3o tiver profetas, d\u00ea aos pobres. Se voc\u00ea fizer p\u00e3o, tome os primeiros e os d\u00ea conforme o preceit<\/em><em>o. <\/em><em>Da mesma maneira, ao abrir um recipiente de vinho ou \u00f3leo, tome a primeira parte e a d\u00ea aos profetas. Tome uma parte de seu dinheiro, da sua roupa e de todas as suas posses, conforme lhe parecer<\/em> <em>oportuno, e os d\u00ea de acordo com o preceito<\/em>. <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui o profeta deve ser tratado mais ou menos como o levita do livro de Deuteron\u00f4mio <a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> e a comunidade que persuadir um profeta a se estabelecer em seu meio deve se sentir como Mica no livro de Ju\u00edzes, que disse: \u201cSei, agora, que o SENHOR me far\u00e1 bem, porquanto tenho um levita por sacerdote\u201d (Jz 17.13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E uma igreja n\u00e3o podia ficar esperando que a palavra de um profeta residente se cumprisse; tal pessoa deveria ter um minist\u00e9rio normal, prof\u00e9tico ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Escolha bispos e di\u00e1conos <\/em><em>(ou superintendentes e ministros) <\/em><em>dignos do Senhor. Eles devem ser homens mansos, desprendidos do dinheiro, verazes e provados<\/em><em>,<\/em><em> pois tamb\u00e9m exercem para voc\u00eas o minist\u00e9rio dos profetas e dos mestres.<\/em> <em>N\u00e3o os despreze porque eles t\u00eam a mesma dignidade que os profetas e os mestres.<\/em>\u201d <a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Didaque, na verdade tenta manter o equil\u00edbrio entre a autoridade dos l\u00edderes da igreja local (bispos e di\u00e1conos) e a autoridade exercida por profetas que n\u00e3o estavam ligados a nenhuma igreja local, e sobre quem n\u00e3o era f\u00e1cil manter um efetivo controle. Em qualquer igreja local sempre haveria pessoas que achavam os profetas visitantes inspiradores, em contraste com os anci\u00e3os s\u00e9rios, a quem deviam ouvir todos os dias. E se as injun\u00e7\u00f5es dos profetas viessem de encontro com os l\u00edderes locais, a autoridade e prest\u00edgio dos anci\u00e3os poderiam ser minadas. Era f\u00e1cil, para os profetas que n\u00e3o tinham responsabilidade local dizer \u00e0s pessoas o curso que deveriam seguir, mas os l\u00edderes locais tinham a responsabilidade de guiar os assuntos do rebanho e assumir as conseq\u00fc\u00eancias de quaisquer erros que cometessem. Por isso foi necess\u00e1rio escrever algumas regras para controlar a atividade prof\u00e9tica, sem que incorressem no risco de \u201cextinguir o Esp\u00edrito\u201d, cf. 1 Tessalonicenses 5.19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe, de fato, uma inevit\u00e1vel tens\u00e3o entre as formas ordenadas de um minist\u00e9rio regular e aqueles minist\u00e9rios cuja forma \u00e9 imprevista e entusi\u00e1stica. \u00c9 normal que pessoas que apreciam uma forma n\u00e3o conseguem entender a outra. Quando um membro do Ex\u00e9rcito da Salva\u00e7\u00e3o \u2013 assim contam a hist\u00f3ria \u2013 freq\u00fcentava um culto numa igreja Anglicana e ouvia um serm\u00e3o evang\u00e9lico que ele gostava, se expressava alegremente com \u201cGl\u00f3ria a Deus! Aleluia\u201d, e logo em seguida um irm\u00e3o da igreja batia em seu ombro e lhe admoestava, \u201cdesculpe-me, Senhor, mas n\u00e3o fazemos isto em nossa igreja\u201d. Mais diretamente agiu o Bispo Butler ao repreender Jo\u00e3o Wesley quando este visitou a Diocese de Bristol: \u201cQuerer imitar as revela\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias do Esp\u00edrito Santo \u00e9 uma coisa horr\u00edvel, horr\u00edvel coisa\u201d. Os l\u00edderes locais s\u00e3o respons\u00e1veis para que haja um fluir da vida da igreja \u201ccom dec\u00eancia e ordem\u201d, e, portanto n\u00e3o gostar\u00e3o de serem perturbados por \u201cap\u00f3stolos\u201d invasores, especialmente os tipos meteoros que hoje est\u00e3o aqui e amanh\u00e3 se v\u00e3o. O profeta visitante, por outro lado critica as regras estabelecidas pelo bispo como se este estivesse apagando o Esp\u00edrito. Cada lado tem seus simpatizantes, e a tens\u00e3o pode gerar divis\u00e3o, a menos que a gra\u00e7a de Deus invada a todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja isto o que acontecera na igreja de Corinto l\u00e1 pelo ano 95 quando surgiram problemas e os presb\u00edteros\/bispos foram depostos e a igreja romana escreveu pela pena de Clemente reclamando do comportamento inconstitucional dos corintos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A insist\u00eancia de In\u00e1cio trouxe para a igreja a supremacia de um \u00fanico bispo, praticamente eliminando o minist\u00e9rio do dom prof\u00e9tico. A Didaque dava total liberdade a que um profeta celebrasse a eucaristia, mas In\u00e1cio insistia que esta s\u00f3 era v\u00e1lida quando celebrada por um bispo ou seu auxiliar. \u00c9 at\u00e9 poss\u00edvel que In\u00e1cio, homem de firmeza de car\u00e1ter e que possu\u00eda em seu minist\u00e9rio um forte sentido prof\u00e9tico se preocupasse, acima de tudo com a ortodoxia. Quando se concede ao profeta a liberdade de falar de improviso, n\u00e3o existe garantia de que ele n\u00e3o traga alguma heresia. Um bispo, por outro lado, \u00e9 o guardi\u00e3o da ortodoxia. A garantia de se conceder liberdade total poderia trazer algum risco. Era comum In\u00e1cio \u201cgritar no Esp\u00edrito\u201d, quando visitou a igreja de Filad\u00e9lfia, afirmando: \u201cNada fa\u00e7am sem seu bispo!\u201d <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> Mas, outras declara\u00e7\u00f5es dele nem sempre eram bem polidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algo semelhante ao g\u00eanio prof\u00e9tico aparece ao mesmo tempo no <em>Pastor<\/em>, de <em>Hermas<\/em>, e talvez esteja a\u00ed a popularidade dessa obra em contraste com outros campe\u00f5es da f\u00e9 daquele tempo. Hermas, \u00e0 semelhan\u00e7a do Didaque estabelece alguns testes para os profetas, e o fato dele faz\u00ea-lo sugere que em seus dias, nas primeiras d\u00e9cadas do segundo s\u00e9culo a enuncia\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica n\u00e3o havia de todo desaparecido da igreja de Roma. O teste estabelecido por Hermas \u00e9 bem evang\u00e9lico, pois afirmava que um homem inspirado pelo Esp\u00edrito de Deus dar\u00e1 provas de que \u00e9 de Deus pelo estilo de vida e car\u00e1ter. Uma pessoa ambiciosa, que se auto-proclama, tagarela ou mercen\u00e1ria mostra que o esp\u00edrito procede de diferentes fontes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Quando um homem que tem o Esp\u00edrito divino entra numa sinagoga de homens justos, que t\u00eam f\u00e9 no Esp\u00edrito divino, e s\u00e3o homens intercessores, ent\u00e3o, o anjo do Esp\u00edrito prof\u00e9tico, que est\u00e1 em contato com ele, enche tal homem e este, cheio do Esp\u00edrito de Deus, fala \u00e0 congrega\u00e7\u00e3o conforme Deus quer\u201d. <a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><strong>[10]<\/strong><\/a>\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, estas manifesta\u00e7\u00f5es prof\u00e9ticas depois da era apost\u00f3lica deram espa\u00e7o para que surgisse o movimento montanista que se espalhou da cidade de Frigia para todo o mundo crist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00c1sia Menor fora marcada por entusi\u00e1sticas formas de religi\u00e3o, especialmente o culto a Cibele, a Grande M\u00e3e dos Deuses. Talvez, em parte por causa disto foi que uma variedade nova de atividades crist\u00e3s aparecesse no ano 156 nos altiplanos da Frigia que contaminou o elemento prof\u00e9tico. O l\u00edder do novo movimento, Montano, de onde procede o nome do montanismo ensinava que, como a dispensa\u00e7\u00e3o do Pai dera lugar \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o do filho quando Cristo veio a terra, tamb\u00e9m agora a dispensa\u00e7\u00e3o do Filho dera lugar \u00e0 dispensa\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito. Pois a promessa de Cristo de que enviaria o Paracleto se cumprira, e ele, Montano era o porta-voz do Paracleto. A vinda do Paracleto era o prel\u00fadio do segundo advento de Cristo e o estabelecimento da Nova Jerusal\u00e9m numa das cidades da Frigia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se citarmos a descri\u00e7\u00e3o que Hort faz do montanismo, veremos manifesta\u00e7\u00f5es que sempre ocorrem na hist\u00f3ria do cristianismo, quando o novo vinho de um movimento espiritual se torna muito poderoso para ser contido nos velhos odres, agora r\u00edgidos demais pele excesso da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Rapidamente, as caracter\u00edsticas desse movimento foram: Primeiro, uma f\u00e9 firme no Esp\u00edrito Santo como o Paracleto prometido, apresentado como poder do c\u00e9u para a igreja nos dias de hoje. Segundo. A cren\u00e7a de que o Esp\u00edrito Santo se manifestou de maneira sobrenatural naqueles dias atrav\u00e9s de profetas e profetizas. Terceiro, a preocupa\u00e7\u00e3o em inculcar o modelo crist\u00e3o de moralidade, disciplina e o fortalecimento do ensinamento desses profetas. Um aumento no n\u00famero de igrejas contribuiu tamb\u00e9m para um aumento de regras e exig\u00eancias e um rigoroso sistema de proibi\u00e7\u00f5es. A essas tr\u00eas caracter\u00edsticas do montanismo podem-se acrescentar outras duas: Quarto, a tend\u00eancia de jogar os profetas contra os bispos. A nova organiza\u00e7\u00e3o episcopal que inclu\u00eda todos os crist\u00e3os numa s\u00f3 comunh\u00e3o e que os montanistas viam nisso um grave perigo, e quinto, um anelo da segunda volta de Cristo com a conseq\u00fcente indiferen\u00e7a aos assuntos terreais.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><strong>[11]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fun\u00e7\u00e3o de mulheres no minist\u00e9rio prof\u00e9tico, apesar dos precedentes no Antigo e Novo Testamentos sempre trouxeram muitos problemas ao governo da igreja. Elas s\u00e3o mais dif\u00edceis de serem controladas do que os profetas homens. Duas mulheres, Priscila e Maximiliana que abandonaram os la\u00e7os familiares para seguir a Montano e que agiam como profetizas de um novo tempo, eram acusadas pelos bispos locais de estarem possessas por dem\u00f4nios, mas, os bispos nunca conseguiram expulsar os dem\u00f4nios delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as novas revela\u00e7\u00f5es que elas apresentavam havia s\u00e9rias medidas restritivas e proibi\u00e7\u00f5es aos seus seguidores, em assuntos como, jejuns e casamento. Parece que no come\u00e7o houve uma tentativa de renunciar totalmente ao casamento, mas, mais tarde o que distinguiu os montanistas foi o ensinamento de que n\u00e3o deveriam entrar num segundo casamento, n\u00e3o apenas para os ministros da igreja, mas para todos os membros da coletividade prof\u00e9tica. Um dos destaques do montanismo era o rigor e o entusiasmo de buscar o mart\u00edrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos aspectos do movimento atraiam todo tipo de pessoas. Os confessores na persegui\u00e7\u00e3o de Viena e Lyon no ano 177 escreveram admoestando os irm\u00e3os na \u00c1sia menor e o bispo de Roma para que n\u00e3o apagassem o Esp\u00edrito ao agir t\u00e3o rigorosamente contra os montanistas. No final do segundo s\u00e9culo o movimento alcan\u00e7ou as prov\u00edncias do norte da \u00c1frica e l\u00e1 houve a convers\u00e3o do ilustre Tertuliano o te\u00f3logo jurista de Cartago. Um mestre dominicano certa vez conversou com este escritor e afirmou que era incompreens\u00edvel como uma pessoa t\u00e3o ilustre e inteligente desse espa\u00e7o ao montanismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00e9 um ponto de vista, mas, pode-se dizer que deveria haver algo s\u00f3lido no montanismo do que se sup\u00f5e, j\u00e1 que conseguia atrair pessoas cultas como Tertuliano. Sem d\u00favida, ao se espalhar por outras na\u00e7\u00f5es, perdeu algumas daquelas extravag\u00e2ncias que eram as caracter\u00edsticas do movimento na Frigia. Talvez o puritanismo tenha atra\u00eddo Tertuliano. De fato, ele demonstra sinais da influ\u00eancia do montanismo em seus escritos durante anos at\u00e9 que finalmente rompeu com a comunh\u00e3o cat\u00f3lica e se entregou completamente aos \u201chomens do Esp\u00edrito\u201d, como eram chamados. O montanismo sobreviveu no seu nascedouro, na Frigia at\u00e9 o s\u00e9culo sexto quando foi esmagado pelo imperador Justino (527-565).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos subprodutos do movimento montanista levou as pessoas a suspeitarem da literatura de Jo\u00e3o, no Novo Testamento, a qual os montanistas constantemente se referiam. A doutrina da Segunda Vinda era baseada numa interpreta\u00e7\u00e3o literal do mil\u00eanio apresentado no livro de Apocalipse (Ap 20.1-7), e havia aqueles que n\u00e3o conseguiam rejeitar a doutrina dos montanistas sem rejeitar tamb\u00e9m o livro de Apocalipse. Um dos que rejeitavam o livro de Apocalipse era um presb\u00edtero, chamado Gaio, autor de Di\u00e1logo no qual fazia um debate com Proclus l\u00edder dos montanistas naqueles dias (cerca de 200 d.C). Parece que Gaio atribu\u00eda a autoria do livro de Apocalipse a Cerinto, um her\u00e9tico que surgiu no final do primeiro s\u00e9culo. Mas, ao que parece Gaio tamb\u00e9m rejeitava a autoridade do quarto evangelho, o livro de onde os montanistas tiravam a doutrina do Paracleto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta informa\u00e7\u00e3o procede de dois escritores sir\u00edacos de onde coletamos a informa\u00e7\u00e3o que Hip\u00f3lito defendia a autoria de Jo\u00e3o tanto do quarto evangelho como do livro de Apocalipse em seu tratado <em>Defesa contra Gaio. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Este dom prof\u00e9tico era semelhante, mas n\u00e3o igual ao dom de l\u00ednguas. Ele sobreviveu nas igrejas da S\u00edria at\u00e9 o final do primeiro s\u00e9culo, quando o tratado conhecido como <em>Didaque mostram as tentativas de barrar e controlar os profetas. Foi restaurado no segundo s\u00e9culo na \u00c1sia Menor entre os Montanistas e manifesta\u00e7\u00f5es semelhantes s\u00e3o vistas em v\u00e1rios per\u00edodos da hist\u00f3ria da igreja. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Didaque 10.7<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Didaque 11.3-6: Os termos ap\u00f3stolos e profetas aparecem intercambiados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Didaque 11. 7-12.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Didaque 12.1-5<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Didaque 13.1-7<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Dt 18.6 e ss. 26.12 e ss. Outro ponto de concord\u00e2ncia entre esta passagem da Didaque e Deuteron\u00f4mio reside na orienta\u00e7\u00e3o de se testar o profeta. Em Dt um homem \u00e9 um falso profeta quando (a) suas predi\u00e7\u00f5es n\u00e3o se cumprem (18.22); (b) se ele seduz as pessoas a lhe seguirem e n\u00e3o ao verdadeiro Deus, mesmo que suas predi\u00e7\u00f5es tenham se cumprido (13.1 e ss.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Didaque 15.1-2<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> In\u00e1cio, Ep\u00edstola aos de Filad\u00e9lfia 7.2<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Hermas, Pastor, Mandate XI, 9<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> F. J. A. Hort, <em>The Ante-Nicene Fathers (1895), pp 100 e ss. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois grandes movimentos se destacam entre aqueles que se desviaram do curso do cristianismo no segundo s\u00e9culo: O gnosticismo e o montanismo. 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