{"id":1915,"date":"2011-07-07T12:14:24","date_gmt":"2011-07-07T14:14:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pastorjoao.com.br\/123\/?p=1915"},"modified":"2011-08-10T13:30:41","modified_gmt":"2011-08-10T15:30:41","slug":"o-inverno-da-nossa-desesperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pastorjoaodesouza.com.br\/123\/?p=1915","title":{"rendered":"O inverno da nossa desesperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">John Steimbeck escreveu seu famoso romance em que tratava da coloniza\u00e7\u00e3o da Calif\u00f3rnia e descreveu a morte e o desespero dos colonizadores naquele tempo. Ali\u00e1s, Steimbeck escreveu outros livros sobre a antiga Calif\u00f3rnia, como <em>A Leste de \u00c9den<\/em> \u2013 e se tornou meu autor preferido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomei emprestado o t\u00edtulo a prop\u00f3sito do inverno rigoroso que assola a regi\u00e3o sul do Brasil. Este inverno mostra o despreparo dos governantes para enfrentar os meses de frio. As casas s\u00e3o g\u00e9lidas e o governo n\u00e3o distribui g\u00e1s para calefa\u00e7\u00e3o das casas. Sente-se tanto frio dentro de casa quanto fora dela. As cobertas parecem \u00famidas; os dedos dos p\u00e9s e das m\u00e3os se enregelam e a quantidade de agasalhos deixa o pobre mortal como m\u00famia, inerte. Cessam as caminhadas pelo parque e s\u00f3 se sai a noite se os compromissos n\u00e3o puderem ser adiados. No meu caso, todas as noites, debaixo da garoa fria, do sereno e do ar gelado \u00e9 preciso sair para atender os compromissos da igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheguei \u00e0 conclus\u00e3o e recomendo que todas as atividades p\u00fablicas sejam repensadas, como cruzadas de evangeliza\u00e7\u00e3o, confer\u00eancias debaixo de lonas e cultos de meio de semana, porque os templos n\u00e3o s\u00e3o preparados para o frio \u2013 nem para o calor. Realizei no fim de semana mais frio do Estado um curso de aperfei\u00e7oamento para os professores de escolas b\u00edblicas, e os poucos participantes\u00a0 congelariam durante as palestras n\u00e3o fosse a habilidade das din\u00e2micas de grupo dos preletores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Decidi, assim, que os cultos da terceira idade retornem em Setembro com a chegada da primavera, e, para o pr\u00f3ximo ano n\u00e3o me atreverei a marcar treinamentos nos meses de junho a agosto \u2013 porque nunca se sabe qu\u00e3o inclemente ser\u00e1 o inverno, que tira toda nossa esperan\u00e7a!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O inverno da nossa desesperan\u00e7a acena com frio, gripes, resfriados e faz tremular ao longe a fl\u00e2mula da morte. O inverno desesperador conflita com a falta de um sistema de sa\u00fade adequado: Em Porto Alegre n\u00e3o existem vagas nos hospitais, nem para quem paga planos de sa\u00fade. Ficar doente nesta na\u00e7\u00e3o durante o inverno \u00e9 se expor ainda mais aos perigos de enfermidades e mortes, porque n\u00e3o existe esperan\u00e7a para o povo num governo que n\u00e3o sabe gerenciar os recursos dos impostos. Com os hospitais lotados, as emerg\u00eancias atopetadas at\u00e9 pelos corredores, entrar num hospital \u00e9 acelerar o processo de morte. Ora, se com todo o aparato m\u00e9dico e os melhores hospitais os ex-presidentes e as pessoas ricas e abastadas morrem, \u2013 cercados de todo cuidado \u2013 o que sobra para o pobre que tem de colocar jornais nas frestas das madeiras para impedir a entrada do vento frio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que considero o povo do nordeste e do norte uns privilegiados. Os pobres de l\u00e1 conseguem viver melhor que os pobres daqui, porque n\u00e3o t\u00eam o inverno da desesperan\u00e7a a soprar-lhes com vento frio as portas de suas choupanas. Enquanto n\u00f3s trememos de frio debaixo de grossos agasalhos, nossos irm\u00e3os nordestinos est\u00e3o se bronzeando ao sol, tomando \u00e1gua de coco, sorvete de a\u00e7a\u00ed e, nas horas de lazer se espregui\u00e7am vagarosamente em suas redes. Sei disso porque faz quinze dias que l\u00e1 estive a servi\u00e7o e pude caminhar sob o sol t\u00f3rrido das oito da manh\u00e3 pela praia da Boa Viagem no Recife.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O povo do nordeste e do norte \u00e9 povo privilegiado com \u00e1rvores frut\u00edferas que s\u00f3 eles t\u00eam! Al\u00e9m de que podem cultivar a ro\u00e7a, criar animais dom\u00e9sticos, lan\u00e7ar o anzol ao mar e, podem dispor, se assim o quiserem de apenas duas mudas de roupas; uma no varal e a outra no corpo, enquanto n\u00f3s aqui do sul precisamos de um vasto guarda-roupa para as quatro esta\u00e7\u00f5es do ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E fico com pena dos irm\u00e3os do nordeste e do norte que aqui ficam estacas. Mas, \u00e9 gente guerreira que logo se adapta ao frio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pior inverno \u00e9 o da desesperan\u00e7a, que perdura faz anos no Brasil, em que n\u00e3o se v\u00ea perspectivas de uma primavera e ver\u00e3o quentes. Com tantas riquezas ainda somos o povo que mais sofre no continente americano. O sistema previdenci\u00e1rio \u00e9 falho, o sistema de sa\u00fade ineficaz e a distribui\u00e7\u00e3o de renda deixa a desejar. John Steimbeck bem que poderia estar vivo e escrever tamb\u00e9m sobre o inverno da nossa desesperan\u00e7a! Certamente ele visitaria os acampamentos dos sem-terra, dos sem-teto e, diferentemente do povo que correu do centro-oeste para a Calif\u00f3rnia, escreveria o terceiro volume da s\u00e9rie!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Faz anos que estamos esperando a primavera chegar sobre a na\u00e7\u00e3o brasileira, mas os governos incompetentes e corruptos s\u00e3o como barreiras naturais que impedem a chegada do calor!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>John Steimbeck escreveu seu famoso romance em que tratava da coloniza\u00e7\u00e3o da Calif\u00f3rnia e descreveu a morte e o desespero dos colonizadores naquele tempo. 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