A essência do culto a Deus

Neste artigo, o propósito é estabelecer os princípios do Novo Testamento que nortearam as reuniões da igreja em seus primeiros anos de vida até depois da queda e destruição de Jerusalém.

  1. O Espírito Santo não deixou modelos de cultos no Novo Testamento.

A primeira coisa a observar é que o Espírito Santo não deixou uma fórmula de culto nas Escrituras. Existem alguns episódios que indicam o conteúdo da reunião, mas não a estrutura ou forma do culto.

Em Mateus 26.30 no registro da última ceia de Jesus com seus discípulos vem a informação de que cantaram um hino: “E, tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras” Mas qual Salmo cantaram, ou que hino entoaram?

Se o escritor inspirado pelo Espírito Santo registrasse qual hino Jesus e os discípulos cantaram, por certo que em algumas congregações os líderes, diáconos e presbíteros estariam atentos exigindo que depois da distribuição da ceia fosse entoado o mesmo cântico que Jesus cantou. E assim, se perpetuaria uma tradição que haveria de engessar o culto e as manifestações do povo a Deus. O ritual a cada culto seria sempre o mesmo, como fazem algumas denominações, e o culto ficaria engessado, sem manifestações espirituais do povo.

Em Atos 20.7-12 Lucas descreve um lugar de reunião da igreja. Ao descrever para Teófilo que o local era bem iluminado, com muitas lâmpadas Teófilo entendeu que os irmãos não estavam ferindo a legislação romana reunindo-se em secreto, mas sob muitas luzes para que todos pudessem vê-los. Assim, não poderiam ser condenados e presos por se reunirem em secreto. E descreve uma reunião em que Paulo prega por várias horas até a meia noite quando um jovem cai da janela, adormecido. Depois reassume a pregação até a madrugada quando jantam e partem o pão em memória de Jesus. E não se tem a estrutura de como era a reunião, apenas réstias de luz sobre o que acontecia com os irmãos.

Em 1 Coríntios 14.26 Paulo abre uma pequena fresta e fornece uma luz do conteúdo de uma reunião da igreja de Corinto. “Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação”.

Isto não quer dizer que não houvesse algum tipo de instrumento musical nas reuniões da igreja – mas não se tem provas bíblicas ou históricas a respeito, apenas uma menção feita por Jesus às flautas tocadas por meninos e aos instrumentos musicais no livro de Apocalipse. Mas, imagine se em algum texto Lucas afirmasse que Paulo tomou a cítara e louvou a Deus; ou que João Marcos levava consigo um tamborim; ou ainda que Silas e Timóteo tocassem trombetas. O Espírito Santo sabe que as pessoas costumam se agarrar a coisas, a estruturas, esquecendo com facilidade o conteúdo das reuniões. Por isso, não deixou um registro sequer de formatos de cultos e de instrumentos musicais nas reuniões da igreja, para que as pessoas de todos os povos e nações usem suas expressões culturais e suas habilidades com quaisquer instrumentos musicais para louvar a Deus.

  1. O Espírito Santo não deixou modelos de cânticos e de hinos nas Escrituras do Novo Testamento.

E também não deixou cânticos e hinos como modelos a serem cantados, para não limitar a criatividade dos irmãos ao longo dos séculos. Há trechos bíblicos que alguns dizem serem cânticos, mas não há provas claras (Rm 11.33; 16.27; 1 Tm 3.16; Jd 24-25). Se ficasse registrado que a igreja cantou tal cântico, a manifestação do povo seria reprimida eternamente e restrita à tradição dos primeiros anos da igreja. É natural o apego à boa tradição.

O culto a Deus não deve ficar restrito à música, tipos de instrumentos ou de cânticos. O Espírito Santo deixou o caminho aberto para que o Nome de Jesus seja exaltado, como se quiser, com todo tipo de instrumento musical. Porque, adoração é estilo de vida, e não música nem instrumentos musicais, mas vida de serviço a Deus e ao próximo. O verdadeiro adorador não precisa de um instrumento musical ou de música para adorar a Deus. Ele adora com a vida.

Somente duas coisas foram instituídas por Jesus para a igreja: O batismo e a ceia. Estes dois elementos permanecem como parte do culto por todas as eras.

  1. As reuniões do povo de Deus: Seguindo os referenciais bíblicos e culturais.

Ao abordar a parte histórica do conteúdo de um culto pode-se obter subsídios bíblicos e históricos para tratar de temas que dizem respeito a igreja local. A Bíblia será sempre o referencial ou a bússola de tudo o que a igreja precisa aqui na terra. No entanto, no decorrer dos séculos, em todas as igrejas do mundo, inclusive do Brasil houve mudanças significativas quanto a forma do culto, por vários fatores:

A falta de informação bíblica sobre o culto e sua estrutura.

A necessidade de informações históricas sobre a igreja do primeiro século.

As transformações culturais e espirituais que afetaram a igreja.

Assim, não se pode defender de unhas e dentes que a ceia do Senhor tem de ser deste ou daquele jeito, porque carece de informações bíblicas. Existem informações sobre a ceia e seu sentido doutrinário, quer dizer, sua essência, mas não a forma prática de como acontecia. O sentido doutrinário foi estabelecido por Jesus e o apóstolo Paulo; a prática, no entanto mudou no decorrer dos séculos. A igreja hoje cuida muito bem de suas fórmulas e zela por elas como se a salvação dependesse delas – esquecendo a verdadeira essência da ceia do Senhor.

O batismo em águas é bíblico, mas afirmar que tem de ser deste ou daquele jeito carece de informações bíblicas sobre a prática. Que o batismo em águas é bíblico disso não resta dúvidas, agora, quanto ao método não existe um padrão bíblico de como isto era feito.

Para que se entenda como eram os cultos da igreja na era apostólica e o que continha em suas reuniões, é preciso primeiramente fazer um resumo histórico extraído dos melhores livros de história ainda não traduzidos para o português.

Os livros de história da igreja consultados para se informar de como eram os cultos na igreja do Novo Testamento foram (History of the Christian Church) [1] de Philip Schaff; The Patternoster Church History e The Pilgrim Church de Broadbent, todos, sem exceção usam as mesmas fontes históricas para pontuar como eram os cultos da igreja no tempo dos apóstolos. Seria demasiadamente cansativo explicar aqui em detalhes, mas todos apontam para um mesmo estilo e conteúdo das reuniões.

  1. Reuniões como herança das sinagogas.

Inicialmente a igreja se reunia no mesmo estilo das sinagogas judaicas, inclusive separando homens e mulheres, às vezes com uma cortina no meio do salão. Os primeiros cristãos, praticamente todos judeus seguiam a tradição de culto de seus pais. Os historiadores acreditam que eles observavam rigidamente o sábado, as festas anuais dos judeus, os horários diários de oração (por isso Pedro e João vão ao templo orar às três horas da tarde), passaram a acrescentar o domingo como memorial da ressurreição de Jesus e participavam em cada encontro da ceia, que era uma refeição em comum.

No entanto, gradualmente devido a perseguição dos judeus, e com a eliminação dos judeus em Roma e a destruição do templo de Jerusalém no dia 9 de agosto do ano 70 d. C., a igreja foi se desvencilhando da tradição judaica. A propósito, antes que Jerusalém fosse destruída os cristãos fugiram da cidade e se refugiaram em Pela, na atual Jordânia. Os únicos que continuaram na prática do judaísmo foram os ebionitas e os nazarenos.

Nas igrejas cristãs gentílicas fundadas por Paulo, a adoração passou a ter outro formato. Os elementos essenciais do Antigo Testamento foram modificados e transferidos para se encaixarem no espírito do evangelho. Assim, o sábado como descanso foi substituído pelo domingo; a páscoa e Pentecostes tornaram-se festas para celebrar a morte e ressurreição de Cristo e do derramamento do Espírito Santo. Os sacrifícios de sangue deram lugar ao memorial do derramamento do sangue de Cristo e a obra eterna feita na cruz. Sem o templo, a adoração passou a ser, de fato, em Espírito em verdade (Jo 2.19; 4.23-24). No fim da era apostólica este estilo de adoração se tornou universal, com exceção das igrejas orientais que mantiveram os costumes judaicos.

Interessa ao pesquisador e ao estudante conhecer os elementos que faziam parte do culto a Deus daqueles primeiros dias da igreja, mas, as pessoas sempre se preocupam com a forma e não com o conteúdo dos cultos. A maioria dos historiadores concorda que o culto da igreja o NT continha vários elementos:

  1. A) A pregação do evangelho. Especialmente o anúncio da salvação em Cristo aos pecadores. Comentaristas mais recentes chamam esta parte de kerigma ou proclamação, para diferenciar do didaskalós ou ensinamento (doutrina).
  2. B) A leitura do Antigo Testamento. Como o cânone do Novo Testamento não estava pronto, o que só aconteceu lá pelo ano 225 d. C., fazia parte do culto a leitura do AT com aplicações práticas para a vida da igreja nessa era da graça. Essa prática da leitura bíblica foi transferida da sinagoga para a igreja cristã. Compare os textos de Atos 13.15; 15.21. Ao longo dos anos foram sendo acrescentadas as leituras das cartas apostólicas e a leitura dos evangelhos que alcançavam todas as igrejas (1 Ts 5.27; Cl 4.16). Depois da morte dos apóstolos, as epístolas que estes escreveram se tornaram muito importantes para a igreja e substituíram as exortações e instruções do AT, e passaram a serem mais lidas nos cultos que os textos do Antigo Testamento.
  3. C) Oração em suas várias formas: Clamor, intercessão e ações de graça. As orações, intercessões e ações de graça são herança do judaísmo, e de fato fazia parte de todas as religiões pagãs, mas agora, começaram a ser oferecidas ao Pai, em Nome de Jesus. Os primeiros cristãos em suas atividades públicas ou privadas oravam sempre, e Paulo os exortava a “orar sem cessar”. Em certas ocasiões jejuavam e oravam, o que lhes ajudava na vida de devoção a Deus. Veja Mt 9.15; At 13.3; 14.23; 1 Co 7.5. Oravam de coração na medida em que eram movidos pelo Espírito Santo, conforme suas necessidades e circunstâncias. Não se vê um traço de uma oração litúrgica exclusiva, porque isto era incompatível com a vitalidade e liberdade da igreja apostólica.

Oravam os Salmos, citavam a oração que Jesus lhes ensinou, e muitas vezes seu clamor era feito em línguas. [2] Os mais antigos modelos de oração deixados registrados na história são a oração da eucaristia (ceia do Senhor) e o clamor a favor dos governantes que consta na primeira epístola de Clemente, o que contrasta lindamente com a hostilidade cruel de Nero e Domiciano. [3]

  1. D) Cânticos. Os cânticos eram em forma de orações e súplicas levando a congregação ao apogeu espiritual e a sentir-se parte da harmonia celestial dos anjos. Essa riqueza espiritual dos Salmos do Antigo Testamento com seu tesouro inesgotável de experiências espirituais, edificação e conforto começaram a fazer parte da igreja cristã. O próprio Jesus deve ter cantado um Salmo na Nova Aliança ao instituir a Santa Ceia (Mt 26.26; Mc 14.26). E Paulo costumava entoar cânticos, pois aconselha a que se cantem salmos e hinos e cânticos espirituais (Ef 5.19; Cl 3.16).

Dessa herança preciosa do passado, agora perfeitamente entendida pela primeira vez à luz da revelação do Novo Testamento, a igreja, em seu entusiasmo do primeiro amor acrescentou cânticos originais, especificamente os Salmos cristãos, hinos, doxologias, e bênçãos finais, que estão entre as mais belas poesias que atravessaram os séculos daquela época até agora. O cântico das miríades celestiais, por exemplo, no nascimento de nosso Salvador, (A Glória, Lc 2.14); o “Nunc Dimittis” de Simeão (Lc 2.29); o “Magnificat” da virgem Maria (Lc 1.46 e ss.); o “Benedictus” de Zacarias (Lc 1.68 e ss.); as ações de graça de Pedro depois de ser miraculosamente libertado (At 4.24-30 cf. Sl 2); o falar em línguas nas igrejas apostólicas, a qual poderia ser um cântico de louvor, eram cânticos entoados com grande entusiasmo, e pode-se ver fragmentos de alguns cânticos espalhados nas epístolas [4] e as passagens líricas e litúrgicas das doxologias [5] e antifonias [6] do Apocalipse. [7]

  1. E) Confissão de fé. Esse era outro elemento presente no culto da igreja apostólica. Os pontos mencionados acima são também atos de fé, como a confissão de Pedro de que Jesus era o Filho de Deus. Outra confissão de fé era a fórmula de batismo trinitariana, pois, a partir daí desenvolveu-se o credo apostólico, que também tem uma estrutura trinitariana, mas cuja centralidade é a confissão de fé em Jesus Cristo em primeiro lugar.

Parece não haver muita confissão de fé nas reuniões do povo de Deus nos dias atuais.

  1. F) A Ceia do Senhor. Este é um dos ritos instituídos por Jesus Cristo. A igreja apostólica o celebrava a cada culto, sempre com uma linda ceia – um jantar mesmo! Comentaristas antigos afirmam que esses dois sacramentos, o batismo e a Santa Ceia, são antítipos da circuncisão e da páscoa sob o Antigo Testamento, e foram instituídos por Cristo como sinais eficazes e meios de graça da nova aliança. Estão inter-relacionados como regeneração e santificação ou como o começo do crescimento espiritual.

Outros artigos na mesma linha virão no decorrer dos meses.

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[1] SCHAFF, Philip, History of the Christian Church, (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc.) 1997. Este material foi cuidadosamente comparado, corrigido e acrescentado (conforme a edição de 1910 de Charles Scribner’s Sons) by The Electronic Bible Society, Dallas, TX, 1998.

[2] Mt 6.9; Lc 11.1, 2. O Didaquê, cp. 8, apresenta a oração que Jesus ensinou em Mateus, com uma breve doxologia, faziam esta oração três vezes ao dia.

[3]  Didaquê cp. 8 –10; Clemente, cp. 59 –61. Apresentado no volume II à p 226 de Philip Schaff.

[4] Ef 5.14; 1 Tm 3.16; 2 Tm 2.11-13; 1 Pe 3.10-12.

[5] A doxologia (Do grego – doxa – “glória” + -logia- “palavra”) foi uma fórmula de louvor e glorificação frequente no AT aplicada a heróis e heroínas, como Débora e principalmente a Deus. No NT embora apareça referindo-se a pessoas (especialmente a Maria e Isabel), dirige-se habitualmente a Deus. Em outras palavras, louvores a Deus.

[6] Antífonas eram versículos bíblicos cantados.

[7] Ap 1.5-8; 3.7, 14; 5.9, 12, 13; 11.15, 17, 19; 15.4; 19.6-8, e outras passagens.

3 Responses to A essência do culto a Deus

  1. Edson de Figueiredo disse:

    Querido Pastor João,
    Muito bom seu comentário sobre a ceia do Senhor, nós temos o privilégio de ter homens com conhecimento e inspiração do Espirito Santo para nos trazer a luz esta mensagem.

    Obrigado meu Pastor!!

    Ir. Edson

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