Voando nas asas do vento do Espírito (parte 2)

Voando nas asas do vento do Espírito (parte 2)

19 de agosto de 2014 4 Por Pr. João de Souza

Para poder voar nas asas do vento do Espírito, como afirmei no texto anterior é necessário que o homem de Deus passe por lutas e tribulações, única forma que Deus encontra para tratar com a carne.

Os místicos da igreja entendiam muito bem o que significava experimentar as profundezas de Deus, como visões, alocuções que é o falar em línguas, êxtases e arrebatamentos. Eles escreveram sobre o recolhimento espiritual em que a pessoa se alegra em Deus, sozinha, tendo uma admiração deleitosa que alarga a alma enchendo-a de paz. Escreveram também sobre o silêncio espiritual quando a alma fica atônita, absorta, abismada e maravilhada diante de tanta grandeza. João da Cruz falava das chagas espirituais, do sono da alma e da noite escura da alma, enquanto Teresa de Jesus falava das chagas de amor, em que o sofrimento vem repleto de gozo.
No entanto, os místicos da igreja – dos quais tenho livros e tratados – para experimentar essa transcendentalidade se autoimpunham castigos físicos, machucaduras, submetiam-se à fome e sede com o fim de se autopurificar. Este, no entanto, não é o caminho da perfeição que agrada a Deus, que o homem se fira com cacos e látegos infligindo a si mesmo dores para poder sentir o sofrimento de Cristo. A tarefa da perfeição deve ser obra de Deus no homem, isto é, vem cima ou de fora para dentro e não do desejo do homem.
O caminho da perfeição não é escolha e tarefa humana, mas decisão de Deus a respeito de uma pessoa. Existem obreiros que Deus quebra aos poucos, um tantinho a cada dia levando anos até que um Jacó se torne príncipe. Deus mesmo haverá de preparar o Peniel para deixar no corpo do homem sua marca. Foram necessários anos de servidão e trabalho até que o homem da roça, Jacó se tornasse Israel ou príncipe. Outras pessoas Deus quebra de uma só vez como fez com Saulo, diminuindo-o até que se tornasse um Paulo. O deserto da Arábia fez bem ao coração inquieto de Paulo e o preparou para receber a revelação divina a respeito da igreja.
A fidelidade a Deus e a entrega total a Jesus Cristo constituem-se automaticamente no caminho que inexoravelmente levará o homem a sofrer tribulações. Não há saída para o homem a não ser enfrentar a dureza da tribulação quando sua carne, sua alma e seu espírito são tratados pelo Espírito de Deus. Como vaso que depois de pronto é levado ao fogo para poder ser vaso útil, assim o obreiro de Deus passa pelo fogo da tribulação, não uma, mas muitas vezes ao longo da vida até que se torne como Jesus. Ser como Cristo tem implicações mais fortes do que apenas ser discípulo. Entre a teoria da teologia e o ser perfeito existe um longo caminho a ser percorrido.
Nenhum obreiro precisa buscar a tribulação, porque se Deus decidiu que este obreiro lhe seja vaso de honra, por certo se encarregará de levar sua obra até o fim. Não é necessário se recolher num mosteiro, pois mesmo lá o mundo ainda estará dentro do homem. O próprio Deus tomará a quem ele quer pela mão e o conduzirá pelo deserto ardente e seco, a fim de que aprenda a depender totalmente da provisão de Deus em todas as áreas de sua vida. Seja numa grande cidade, no campo ou num mosteiro.
Mesmo assim, como diziam os místicos, Deus sempre deixa nos melhores santos alguma fraqueza para que aprendam a depender unicamente de Deus e jamais confiem em si mesmos.
Quando Paulo fala em depender da carne, refere-se àquela dependência que o homem tem de seu conhecimento, sabedoria e autoestima elevada com as quais se impõe sobre as pessoas como se fosse muito espiritual; na realidade, expõe assim sua carnalidade.
Veja o caso de Elias. Enquanto dependia de Deus experimentava uma transcendentalidade tal que era transportado pelo Espírito de Deus de um lugar a outro. Não foi isso que falou Obadias a Elias quando o encontrou? Obadias procurava alguma relva verde para dar aos animais e ficou surpreso com a presença de Elias. Ele falou que Acabe fizera jurar os reis de que Elias não estava escondido entre eles. E gora, “poderá ser que, apartando-me eu de ti, o Espírito do SENHOR te leve não sei para onde, e, vindo eu a dar as novas a Acabe, e não te achando ele, me matará” (1 Rs 18.12).
Quando ele parou de depender de Deus e tratou de fugir de Jezabel, Elias mostrou sua fraqueza; a fraqueza de todos nós. Mesmo assim, quando fugia de Jezabel encontrou pão e água preparados pelos anjos no deserto. Agora, precisou enfrentar quarenta dias de caminhada até Orebe em vez de ser transportado pelo Espírito de Deus. Não foi isso que os discípulos dele disseram a Eliseu em Jericó: “pode ser que o Espírito do SENHOR o tenha levado e lançado nalgum dos montes ou nalgum dos vales”? (2 Rs 2.16).
Deus mesmo se encarrega de pegar o homem e metê-lo em tantas tribulações que o homem não precisará se autoflagelar fisicamente; nem buscar tribulações por sua própria conta: Deus faz que o homem entre pelo caminho do deserto onde experimentará todo tipo de sofrimento, mas nunca o deixará sem o pão e água!
Na quietude do deserto Deus lhe falará ao coração e ali terá suas faculdades espirituais aumentadas, para que, ao entrar no Jardim de Deus usufrua das delícias divinas, sem prepotência nem autossuficiência, mas dependente sempre de Deus.